Você já ficou irritado após ler uma postagem e, sem pensar duas vezes, respondeu ou reagiu com aquela "carinha vermelha" de zangado? Se a resposta for sim, é bem provável que tenha sido vítima de um “rage bait”: conteúdo on-line criado propositalmente para gerar raiva, frustração ou ofensa, visando ao engajamento nas redes sociais. Esse tipo de interação tornou-se tão comum que o termo foi eleito a "Palavra do Ano" pelo Oxford English Dictionary.
“Não é comunicação, mas uma reação que se dá pela raiva. Isso reflete a nossa perda da capacidade de dialogar. Hoje, nós não refletimos; se vemos um conteúdo desse tipo, nossa intenção é reagir”, explica Cínthia Demaria, comunicóloga e psicanalista que pesquisa as dinâmicas das interações humanas no meio digital. “É um 'não convite' à leitura e à reflexão. O que nos resta é o silêncio ou sermos silenciados”, observa.
“O que a raiva faz?”, indaga o psicólogo Cláudio Paixão, professor do curso de Ciência da Informação da UFMG. “Ela mobiliza todos os meus recursos e energia para enfrentar algo que percebi como uma violação de norma. Então, tento punir aquilo, porque preciso sobreviver. É uma questão de sobrevivência arraigada em nós, que é explorada por essas estratégias”, analisa.
Ele explica que esse lado “sobrevivente” faz com que uma postagem de rage bait capture nossa atenção muito mais do que um tema neutro. “No mundo natural, eu seria ameaçado — ou teria grandes chances de ser — por algo que me causa raiva. Desta forma, automaticamente sinto que devo responder de forma rápida”, salienta Paixão.
O professor destaca que o fenômeno explora mecanismos psicológicos que vão desde a nossa capacidade de contágio emocional até o circuito cerebral de recompensa. “Tudo isso é carregado de uma discussão moral para produzir efeito nas pessoas. Esse conteúdo gera um apelo estético no sentido de atribuir valor a algo.”
Laços. Cínthia Demaria pondera que esse conteúdo nos afasta dos laços sociais possíveis pois, “independentemente do assunto, os laços sociais se dão na perda”. Ela explica que, ao pactuarmos uma relação com o outro, abrimos mão de algo. “Abrimos mão de uma parcela de 'gozo', como dizemos na psicanálise. Perdemos algo para estar em relação com o outro”, afirma.
A reunião de pensamentos idênticos não significa, necessariamente, a existência de um grupo. “Ele só existe a partir da diferença de opiniões”, completa. Como hoje vivemos sob uma "ditadura algorítmica", na avaliação da comunicóloga, só vemos aquilo com o que concordamos. “Isso favorece a polarização. É sempre mais atrativo, pois somos convocados a querer dar uma resposta”, comenta Cínthia.
Ela lembra que o Dicionário Cambridge também escolheu sua palavra do ano no universo on-line: "parassocial" — a conexão que as pessoas sentem por alguém que não conhecem ou até por uma inteligência artificial. “São termos concomitantes que refletem o imaginário social”, observa.
“Eles se relacionam não apenas pelas interações on-line, mas pela reação por meio da raiva. O termo 'parassocial' aponta para a nossa incapacidade de estabelecer laços reais. Não é muito diferente do rage bait; passamos a estabelecer relações apenas no formato on-line”, assinala Cínthia.
Sobre a contaminação emocional na rede — seja por texto ou estímulo visual —, Cláudio Paixão registra que a satisfação gerada ao reagir é similar à de lutar contra uma ameaça real. “A rede social me protege, então posso xingar e criticar sem que nada aconteça. Se eu fizesse isso em outro lugar, provavelmente seria punido.”
Para ele, o rage bait é uma técnica eficaz, porém problemática do ponto de vista ético. “Muitas vezes, cria um senso de injustiça sobre algo que nem nos diz respeito, desencadeando uma resposta rápida de indignação para gerar o clique. É o que a psicologia chama de uma 'externalidade negativa importante'.”
Desinformação. Paixão destrincha o processo ao frisar que a leitura de um assunto pode não atrair inicialmente, mas ver alguém apontando culpados de forma simplista gera engajamento. “Eu não quero fazer o exercício de pensar para resolver algo complexo, então prefiro esse conteúdo curto, que gera inclusive desinformação ao saturar nosso sistema comunicacional.”
Cínthia avalia que, embora se fale em democratização da informação, a liberdade é limitada pelo formato do conteúdo. As plataformas incentivam vídeos curtos, por exemplo. “O formato favorece opiniões rápidas e velozes, sem convite à reflexão.”
A psicanalista reforça que, quanto mais reagimos ao rage bait, mais tempo perdemos. “Isso é interessante para a rede, não para nós. Acabamos fomentando um discurso que é apenas reação. No fim, está todo mundo falando e, ao mesmo tempo, todo mundo calado. É algo paradoxal”, conclui.
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