Carlos Pedro Macena
Lançado em 1955 no mundo sob o título original "Rebel Without a Cause" e no Brasil com esta tradução patética, tendo no elenco Natalie Wood e Dennis Hopper no início de suas carreiras em Hollywood, o último filme estrelado por James Dean, que espatifaria sua Porsche contra uma árvore de estrada cerca de um mês depois da estreia, colocou na pauta do mundo a questão do "rebelde sem causa, do conflito geracional originado da falta de comunicação.
Passados mais de meio século, a juventude está hoje mais para desviada, dispersa, diluída, sem um tiquinho da rebeldia daqueles tempos e muito menos sem causa aparente para virar o jogo. Basta ver a apatia dos jovens que se acabaram nas ruas do Carnaval diante do frenético ritmo em que as instituições vão se esfarinhando dentro do Estado brasileiro.
É deputado federal cassado fugido do país, é desembargador que ganha R$ 1 ilhão por mês, é juiz togado que absolve estuprador, é presidente de partido que roubou mais de R$ 7 milhões dos aposentados via empréstimos consignados - e não se vê um apito de Minnesota em nossas ruas.
Vale, portanto, recuperar dois textos preciosos, curtos mas cirúrgicos, sobre as razões e as consequências deste estado de coisas. O primeiro é do jornalista Fausto Macedo, do jornal "O Estado de S. Paulo", que postou suas palavras dia 6 de junho de 2018, falando como representante da OAB/SP:
"(...) O cenário da infância e adolescência no Brasil é preocupante, ainda mais em um momento de forte crise política e econômica. Não há bala de prata para solucionar o problema, mas é certo que a infância deve ser uma prioridade absoluta das políticas públicas, como garante a Constituição. Caso contrário, continuaremos andando em círc
O fato é que a juventude deseja um Estado forte, com eficiência no setor privado e serviços públicos gratuitos e de qualidade. Trata-se de uma geração que se vale de métodos mais críticos para medir a qualidade do serviço público.
A Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil lamenta a existência de um oceano de distância entre a classe política e os jovens, desiludidos como a maioria da população.
Encastelados em Brasília, os políticos pouco respiram o clima do tempo, as necessidades das ruas, o cotidiano das pessoas, o jeito de pensar da nova geração.
É nosso papel, enquanto na vanguarda social, trabalhar para inserir os jovens no espectro da política, de modo que se transformem em protagonistas da contemporaneidade. Sem sua participação, o Brasil não pegará o bonde da história e permanecerá andando em círculos.(...)"
O diagnóstico feito há quase uma década é transformado em números pela também blogueira do "Estadão", Bruna Andrade, ao analisar cifras e dados coletados pela Fundação Abrinq um ano antes:
"(...) O estudo “Cenário da Infância e Adolescência no Brasil”, divulgado pela Fundação Abrinq, nesta terça (21), revelou que 40% das crianças de até 14 anos estão em situação de pobreza, no Brasil. O dado é preocupante, pois a vulnerabilidade social é refletida em muitos outros indicadores sociais, como trabalho infantil, violência e acesso a água.
A criança que não tem seus direitos básicos garantidos não se desenvolve integralmente. Quem não tem escola de qualidade não chega à faculdade e consequentemente não rompe o ciclo da pobreza, reproduzido de geração em geração. Quem não tem acesso à água sofre danos na saúde, e quem não tem lazer não vivencia a plena infância.
O relatório mostrou, por exemplo, que 70% das crianças de 0 a 3 anos não têm acesso às creches no Brasil. Com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2015, concluiu-se também o aumento de 8,5 mil crianças de 5 a 9 anos no trabalho, na agricultura, indústria têxtil e frigorífica.
Há ainda outros números assustadores: segundo o IBGE, 9,8 milhões de domicílios no Brasil não possuem acesso à rede de distribuição de água e rede de esgoto. Além disso, 25% dos bebês nascidos na região Norte são de mães com menos de 19 anos.
O estudo constata que 3,22 milhões de domicílios são localizados em favelas, com aproximadamente 11,4 milhões de pessoas vivendo nessas condições. E no ano de 2015, mais de 56 mil mortes por homicídio foram notificadas no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM). Entre eles, 18,4% foram contra jovens com menos de 19 anos.(...)"
Nos próximos dias, vamos buscar na plataforma SIDRA do IBGE, praticamente desmontada no governo Bolsonaro, que cancelou verbas até para a Contagem de População, que dirigi em Pimenta Bueno e Espigão do Oeste como Agente Censitário Municipal em 1994, dados que autorizem dizer se algo melhorou nesses sete dos últimos setenta anos e que nos permitam a licença poética de dizer que James Dean não morreu em vão.
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