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Sábado, 12 de junho de 2021
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Geral

Ponte do Abunã - Tributo aos operários

Ta vendo aquela ponte,moço? Eu trabalhei lá....

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Severiano embrenhou-se na Floresta Amazônia nos anos 40, tempo em que o flagelo da seca fazia minguar rios e desidratar corpo e alma dos nordestinos. Jovem, forte e atrevido, Severiano ouvia falar da guerra que acontecia noutro lado do mundo.

Vira e mexe dizia ao pai, Sebastião, que podendo, gostaria de ser combatente, soldado. Tião balançava de leve a cabeça, enquanto caminhavam carregando enxadas sem serventia na terra ressequida.

“E tu sabe ao meno adonde é a tal guerra. Quem contra quem? Tú sabe”

“Painho...sei não. E nem faço caso. Briga é igual em todo canto. Tem os que apanha e os que bate. Eu vou é pra bater, painho”

Diante da improbalidade do filho empunhar um fuzil, Sebastião fazia pouco. Até o dia em que soldados apareceram, convocando todos aqueles saudáveis e dispostos para se alistarem. Findava 1941 e só na cidade de Fortaleza havia 30 mil flagelados pela seca, Esses homens desesperados o DNI (Departamento Nacional de Imigração) não teria dificuldade em recrutar.

Severiano estava animado. Seu facão ia tinir no costado dos inimigos, qualquer raça fosse. Voltaria capitão, herói condecorado. O que tinha de coragem Severiano tinha de ingenuidade. Quando se viu numa barcaça, Severiano ficou sabendo que ele e os outros milhares de homens estavam indo pra Amazonia, com a missão de extrair borracha das mais de 300 mil arvores produtivas.  Faltou “isso” pro facão lamber o costado de sargentos a tenentes.

E visto que o que não tem remédio, remediado está, acalmou-se.

O que corria nos bastidores da guerra, os acontecimentos no hemisfério Norte ou do outro lado do Oceano Pacífico, provavelmente nunca foram esclarecidos aos mihares de homens levados para a região Amazônia. Eles contavam com a promessa de um dia voltar pra casa e de um soldo de 100 dolares mensais.  

Os países aliados não conseguiam conter a ofensiva alemã e o estoque de matérias primas estratégicas, como a borracha, eram consumidos rapidamente. Foi então que um acordo entre o governo brasileiro e governo americano deu origem aos Soldados da Borracha. Nem todos, porem, se apresentaram voluntariamente. Em muitos casos as miseráveis familiares dos sertões nordestinos precisaram escolher entre mandar filhos para selva ou para o front de batalha.

Esse foi um capitulo inglório e obscuro da nossa história. Quando chegavam aos alojamentos na selva, cada recruta recebia um chapéu, um par de alparcatas, uma blusa de morim branco, uma calça de mescla azul, uma caneca, um talher, um prato, uma rede, cigarros, um salário de meio dólar por dia  e elevadas doses se propaganda enganosa.

Os navios do Loyd saiam dos portos nordestinos abarrotados de homens, mulheres e crianças de todas as partes do Brasil. Primeiro rumo ao Maranhão e depois para Belém, Manaus, Rio Branco e outras cidades menores onde as turmas de trabalhadores seriam entregues aos patrões” (seringalistas) que deveriam conduzi-los até os seringais onde, finalmente, poderiam cumprir seu dever para com a Pátria.

               Severiano nunca mais viu o pai, Sebastião. Jamais teve oportunidade de voltar. A guerra findou-se e Severiano criou raízes nas barrancas do Rio Madeira, vivendo da caça, pesca e pequena roça. Quando a mestiça Janaina cruzou seu caminhou, tentou formar uma grande família. O casal teve três filhos e uma filha... a malária matou dois dos meninos ainda bem pequenos e a menina depois dos quatro anos. Só Januário vingou.

               O sertanejo que sonhou lutar na guerra, virar herói condecorado, morreu de velho, dormindo na rede.

               Januário beiradeiro não é acreano nem rondoniense. Desde menino de la pra cá, daqui pra la. Mestre na arte de fabricar canoas, vive modestamente, sem luxo e sem pressa. De tudo já fez nas barrancas do madeira e até  foi”fichado” na função de auxiliar operacional das balsas que levavam veículos e pessoas de Rondonia pro Acre, do Acre pra Rondônia.

               Mas foi nos últimos seis, sete anos que Januário trabalhou duro. Operário na construção da imponente Ponte do Abunã, conseguiu ganhar o suficiente pra construir uma casinha. A ponte demorou dez anos para ser concluída e hoje, sexta feira, sete de maio, está sendo inaugurada.

               Januário, que tanto concreto carregou, procurou seu chefe imediato anteontem:

               “Dotô, a gente vai poder ficar ali, em cima da ponte, perto das “otoridades” né?”

               “Mas de jeito nenhum, Januário. La em cima só cem pessoas especialmente selecionadas. O negócio não é bagunçado assim não, ô Januário.”

               Hoje, Januário observou a muvuca de longe, na canoa, no meio do rio. Ficou com receio de se aproximar porque o que sobrava era seguranças armados. Dez minutos e perdeu o interesse. Foi remando e resmungando:

               “Pra mim serventia isso não tem. Canoa não viaja no cimento...mas que não ta certo não ta...num vi nenhum cabra desses ai no eito, garrando no pesado. Num vi nenhum, nenhum. Agora, “nóis” que fizemos “fiquemo” escorraçados”. Eu nunca mais que vou fazer ponte, nem prédio, nem escola...só trabalho se for pra construir igreja, que lá o padre deixa entrar...”

               Januário, filho de soldado da borracha, beiradeiro raiz nunca ouviu falar do cantor Zé Geraldo, muito menos da musica Cidadão....lhe serviria de alento a perfeita composição de Lúcio Barbosa:

Tá vendo aquele edifício moço?

Ajudei a levantar

Foi um tempo de aflição

Eram quatro condução

Duas pra ir, duas pra voltar

Hoje depois dele pronto

Olho pra cima e fico tonto

Mas me chega um cidadão

E me diz desconfiado, tu tá aí admirado

Ou tá querendo roubar?

Meu domingo tá perdido

Vou pra casa entristecido

Dá vontade de beber

E pra aumentar o meu tédio

Eu nem posso olhar pro prédio

Que eu ajudei a fazer

 

Tá vendo aquele colégio moço?

Eu também trabalhei lá

Lá eu quase me arrebento

Pus a massa fiz cimento

Ajudei a rebocar

Minha filha inocente

Vem pra mim toda contente

Pai vou me matricular

Mas me diz um cidadão

Criança de pé no chão

Aqui não pode estudar

Esta dor doeu mais forte

Por que que eu deixei o norte

Eu me pus a me dizer

Lá a seca castigava mas o pouco que eu plantava

Tinha direito a comer

 

Tá vendo aquela igreja moço?

Onde o padre diz amém

Pus o sino e o badalo

Enchi minha mão de calo

Lá eu trabalhei também

Lá sim valeu a pena

Tem quermesse, tem novena

E o padre me deixa entrar

Foi lá que cristo me disse

Rapaz deixe de tolice

Não se deixe amedrontar

 

Fui eu quem criou a terra

Enchi o rio fiz a serra

Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asas

E na maioria das casas

Eu também não posso entrar

 

Fui eu quem criou a terra

Enchi o rio fiz a serra

Não deixei nada faltar

 

Hoje o homem criou asas

E na maioria das casas

Eu também não posso entrar

 

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