Juliane Furno
Há algumas semanas, argumentei nesta coluna que existe um paradoxo na economia brasileira atual. Os principais indicadores econômicos apontam melhoria, com desemprego em níveis historicamente baixos; crescimento sistemático da renda média; inflação controlada; crescimento econômico; e o real em valorização. Mesmo assim, 46% dos brasileiros acreditam que a situação econômica piorou, segundo o Datafolha de março de 2026.
Apontei dois fatores que ajudam a explicar essa dissonância: o endividamento das famílias e a frustração da juventude. Esta coluna aprofunda o primeiro deles, e dimensiona um vetor que estava subestimado na análise anterior: o peso das apostas online, as bets, sobre o bolso da classe trabalhadora brasileira.
Em março de 2026, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas. É o maior patamar desde que a Confederação Nacional do Comércio começou a medir esse indicador, em 2010. Obviamente ter dívidas não é problema, inclusive o crescimento do endividamento, normalmente, acompanha o ciclo de crescimento econômico.
Famílias mais pobres têm mais dificuldades em pagar dívidas
Ter dívida não significa não conseguir pagá-la. No entanto, quando cruzamos inadimplência e estrato social, a coisa fica mais grave. A regressividade do endividamento ficou ainda mais nítida na última Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, a PEIC: entre famílias com renda de até três salários mínimos, a inadimplência chega a 38,2%. Já quando olhamos as famílias que recebem acima de dez salários mínimos, cai para 14,7%. As famílias mais pobres são 2,6 vezes mais propensas a não conseguir pagar suas dívidas.
A comparação internacional acentua o diagnóstico. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, calculou que o comprometimento médio da renda das famílias brasileiras com pagamento de juros e amortizações chega a cerca de 20% da renda. Isso é mais que o dobro da média de 9,8% registrada em 17 países de capitalismo desenvolvido. É um problema estrutural, acentuado pelo quadro conjuntural de juros elevados.
No mesmo mês, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, o Dieese, calculou que o salário mínimo necessário para cobrir as despesas básicas de uma família de quatro pessoas seria de R$ 7.426, portanto, 4,58 vezes o piso oficial que está em R$ 1.621. Em São Paulo, a cesta básica de alimentos consome, sozinha, 59% do salário mínimo líquido. Se levarmos em conta que o trabalhador precisa pagar aluguel, luz e transporte, fica fácil perceber que a conta não fecha.
E não foi só o orçamento que apertou em termos relativos: os preços dos alimentos cresceram acima da inflação geral. Ainda que a inflação e, principalmente, a inflação de alimentos tenha cedido nesse último período, sinalizando um quadro de melhorias, se compararmos as perdas acumuladas estaremos mais habilitados a entender o problema de forma mais complexa: entre janeiro de 2018 e março de 2026, o IPCA acumulou alta de 53%. Só que o grupo Alimentação e Bebidas subiu 57% no mesmo período, ou seja, mais que a média geral. Na cesta de consumo dos mais pobres, onde alimentação representa 22% das despesas totais, cada ponto a mais de inflação de comida tem um grande impacto.
‘O dinheiro novo entra e vai direto para tapar buracos antigos. E é nesse cenário já apertado que um vetor novo ganhou escala entre 2018 e 2026: as apostas online’.
Os mais pobres foram duplamente castigados: pelo peso relativo que a alimentação tem em seus orçamentos e pela inflação que, por anos, subiu mais rápido nessa categoria do que no agregado, especialmente no governo Bolsonaro, quando o Brasil comemorava o paradoxo de ser o “celeiro do mundo” e no Brasil aceleravam-se a fome e a insegurança alimentar.
Existe um conceito usado na literatura sobre finanças do consumidor, que é o de restrição financeira. A ideia aqui é que quando o orçamento está capturado por prestações, juros e atrasos, os ganhos pontuais, ou marginais, que a pessoa tem impactam muito pouco na sua sensação de bem-estar e na percepção de melhora econômica.
O dinheiro novo entra e vai direto para tapar buracos antigos. E é nesse cenário já apertado que um vetor novo ganhou escala entre 2018 e 2026: as apostas online.
Bets: o novo imposto privado
As bets podem ser vistas como um imposto privado porque capturam uma parcela contínua e crescente da renda das famílias, sobretudo das mais pobres e endividadas, sem gerar contrapartida social equivalente.
Ao contrário de um imposto público, que pode financiar políticas coletivas, esse fluxo transfere renda diretamente dos apostadores para empresas privadas, muitas vezes por meio de mecanismos desenhados para estimular apostas rápidas, repetidas e de alto risco.
Em agosto de 2024, o Banco Central publicou o Estudo Especial nº 119, dimensionando pela primeira vez o mercado de apostas online no Brasil. Os números revelam um setor bilionário, enraizado na baixa renda. Entre R$ 18 e R$ 21 bilhões por mês foram transferidos via Pix para 56 empresas de bets ao longo de 2024. No primeiro trimestre de 2025, segundo o próprio Banco Central, o volume chegou a R$ 30 bilhões mensais. O total anual de 2024 foi estimado em nada menos que R$ 240 bilhões!
Vinte e quatro milhões de pessoas fizeram pelo menos uma transferência Pix para bets em agosto de 2024. Cinco milhões dessas pessoas eram beneficiárias do Bolsa Família e enviaram R$ 3 bilhões. A mediana do gasto por pessoa do programa foi de R$ 100 por mês. Isso equivale a 15% do benefício médio por mês. Se pegarmos o total de apostadores, 17% dos cadastrados no Bolsa Família apostaram no período.
O Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo, o Ibevar, e a FIA Business School, em estudo conduzido pelo professor Claudio Felisoni, usaram dados do Banco Central e do Ipea de 2011 a 2025 para medir o impacto específico das bets sobre o endividamento das famílias. Para isolar este efeito, o modelo econométrico separou estatisticamente a contribuição das apostas da contribuição dos juros e do crédito — isto é, perguntou “quanto do endividamento sobra para ser explicado pelas bets, descontando o que já é causado por juros altos e expansão do crédito?”.
O resultado: o coeficiente das bets foi 0,2255, cerca de três vezes maior que o dos juros ao consumidor (0,0709) e cinco vezes maior que o do crédito (0,0440).
Em um país onde a taxa básica de juros, a Selic, está em 15% ao ano, as apostas já pesam mais que os juros no endividamento familiar. Ou seja, nesse modelo, a expansão das apostas online aparece como o elemento com o maior peso associado ao endividamento das famílias. Isso quer dizer que quando o indicador ligado às bets aumenta, o endividamento das famílias tende a aumentar mais, em relação às outras duas variáveis (juros e crédito).
Em dezembro de 2025, uma análise citada pela Agência Brasil estimou o custo total das bets ao país em R$ 38,8 bilhões em 2025. Uma pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, a CNDL, e do Serviço de Proteção ao Crédito, o SPC Brasil, em novembro, mediu 39,5 milhões de apostadores em 12 meses. Dentre eles, 29% já tiveram o nome negativado por dívidas ligadas a apostas (sendo que 17% permanecem nessa condição), 41% sacrificaram consumo essencial e 17% deixaram de pagar contas.
Os mais pobres pagam a conta
Levantamento do Instituto de Pesquisa do DataSenado divulgado em outubro de 2024, identificou que 13% dos brasileiros com 16 anos ou mais – equivalentes a 22,13 milhões de pessoas – apostaram nos 30 dias anteriores. Desse total,52% ganham até dois salários mínimos.
Mas talvez o dado mais eloquente, em termos globais, sobre a velocidade do fenômeno venha da consultoria Strategy&, daPwC. Em 2018, as bets representavam 10% dos gastos em lazer e cultura das classes C, D e E (denominação da própria pesquisa). Em 2024, já eram 38%. No gasto com alimentação, a participação saltou de 1,5% para 4,4% no mesmo período. É uma fotografia da substituição regressiva em tempo real, já que mostra que, em seis anos, as bets quase quadruplicaram seu peso no orçamento dos mais pobres, deslocando especialmente gastos com entretenimento e comida.
Os mais ricos apostam mais em valores absolutos, apresentando uma média de R$ 255 por mês em bets. Já os mais pobres gastam, em média, R$ 152. Mas o que importa aqui é o peso relativo sobre a renda. Para uma família de classe média alta, R$ 255 mensais representam menos de 1,5% da renda. Para um beneficiário do Bolsa Família, os R$ 100 mensais representam 15% do valor médio do benefício, ou 5,7% da renda familiar total anual. A mesma aposta impacta, portanto, de maneiras diferentes distintos extratos sociais.
O que fizeram os países que enfrentaram o problema?
A experiência internacional oferece um cardápio de intervenções testadas. No Reino Unido, a Gambling Commission proibiu, em abril de 2020, o uso de cartão de crédito para apostas online, reconhecendo que pessoas com altos níveis de dívida estavam usando o cartão para viabilizar o jogo. Em 2019, o valor máximo das apostas nas máquinas Fixed-Odds Betting Terminals, os FOBTs [equipamentos eletrônicos que incluem vários jogos, incluindo roleta], caiu de 100 libras para 2 libras, medida associada a uma queda de 99% na receita bruta de jogo desse segmento específico.
Na Espanha, o Decreto Real 958/2020 impôs restrições ao marketing de apostas (bônus, promoções, patrocínios). Um estudo publicado no Harm Reduction Journal estimou queda permanente em novas contas e no total apostado após a vigência da norma. Na Bélgica, em 2023, entrou em vigor um banimento amplo de publicidade de apostas, com escalonamento para proibir anúncios em estádios em 2025 e patrocínio de clubes em 2028. Já na China continental apostas privadas e bets online são proibidas. O Brasil também proibiu desde o início de 2025, por meio da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços.
O Brasil escolheu regular, mas a regulação está funcionando?
No Brasil, desde janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas podem operar no mercado de apostas, sinalizadas pelo domínio .bet.br. Diferentemente do que ocorreu no governo Bolsonaro, o governo Lula, desde 2023, passou a construir mecanismos de regulamentação sobre as apostas online.
Duas medidas recentes são especialmente relevantes para o recorte que estamos tratando aqui: dívida e baixa renda. A Portaria SPA/MF nº 566 de março de 2025 proíbe instituições financeiras de processarem transações com operadores não autorizados. E uma instrução normativa de setembro de 2025 vedou a participação de beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada nas plataformas reguladas, com consulta obrigatória ao Sistema de Gestão de Apostas, o Sigap, por CPF, com bloqueio e devolução de recursos ao usuário. Esse já foi um avanço muito importante.
Mas há ainda duas lacunas, na minha opinião, na regulação brasileira. A primeira delas é o mercado ilegal, que permanece operando em larga escala. O governo relata milhares de páginas bloqueadas pela Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, desde 2024, mas operações como o Jogo do Tigrinho mostram redes paralelas envolvendo bilhões em movimentações suspeitas, além de ampla divulgação por influenciadores digitais. A proibição de marketing agressivo, prevista no Anexo X do Código Brasileiro de Autorregulação Publicitária, o Conar, depende de capacidade de fiscalização, que o estado ainda não demonstrou ter.
A segunda lacuna está na falta de limites legais sobre o próprio formato dos jogos. Em modalidades como os slots (aqueles jogos em que a pessoa aperta um botão para girar símbolos na tela como frutas, números, cartas, temas de cassino, animais, tigrinho etc), o jogador toma decisões em intervalos de poucos segundos, o que aumenta a velocidade das perdas e pode ampliar o risco de dano financeiro. Embora o Brasil tenha regulamentado os jogos online de resultado aleatório em 2023, como expliquei acima, a legislação não definiu limites importantes para isso, como a velocidade máxima das rodadas, o valor máximo por aposta ou o tempo máximo de sessão. Esses jogos de velocidade rápida têm características estruturais que a literatura internacional associa a maior risco de dano financeiro.
Frente a esses indicadores, me parece que a regulação, apenas, não está sendo suficiente. Isso sem contar os dados já amplamente conhecidos sobre o impacto das bets na saúde pública. Nos anos 2000, o mesmo governo Lula enfrentou com coragem as redes de apostas em cassinos fixos. Será que não é a hora de enfrentar com maior ousadia esse tema que tem causado tantos impactos deletérios aos trabalhadores? Acredito que a proibição desse tipo de jogo não deva ser tabu, e mereça ser tratada com toda a seriedade necessária.
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