Um sábado, final da tarde, estou sentado aqui vendo minha filha, de seis anos, tomar banho na piscina.
A água bate leve, ela ri sozinha, inventa coisas que só existem naquele instante. E eu fico olhando.
De repente, sem aviso, me vem um pensamento.
Daqui a vinte anos, ela vai ter vinte e seis.
Vem assim, inteiro. Não como conta, mas como um susto manso.
E eu, aqui, no mesmo banco, já não sou o mesmo.
Olho de lado e vejo um ferro redondo, desses que parecem disco de arado. À noite, colocam fogo dentro. Fica bonito, iluminando a beira da piscina.
E aquilo me leva longe.
Penso na Ipueira.
Penso nesses discos acesos, espalhados pelo terreiro, iluminando uma festa. Talvez o casamento dela. Música, gente chegando, mesa posta, risos soltos na noite.
E me pergunto, com uma calma que quase dói:
Será que eu vou estar lá?
Não é medo.
É medida.
Porque, em vinte anos, quase tudo muda.
Os nomes mudam.
O poder muda.
As certezas mudam.
Outros virão.
E também passarão.
Como todos passam.
O mundo não para.
A gente é que passa por ele.
E, enquanto penso nisso tudo, ela continua ali.
Mergulha. Some. Volta. Ri.
Viva.
Então eu entendo, com uma clareza que quase aperta o peito:
O futuro é só uma hipótese.
Mas este instante… não.
Este instante é tudo.
E eu estou dentro dele.
E ela também.
E, por agora,
isso basta.
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