Meu irmão Bruno morreu dia 22 de fevereiro de 2021, às 18 h e 45 min na cidade de Porto Alegre. Mais de mil pessoas, em todo o Brasil, deixaram suas famílias naquele dia. Meu irmão morreu. Ele ficou quase um mês internado, recebeu atendimento no início da queda da saturação de oxigênio em sua corrente sanguínea; teve leito na UTI assim que foi preciso; foi intubado com 50% das funções pulmonares; se recuperou de uma bactéria pulmonar agressiva; manteve seu coração forte enquanto seus pulmões e seus rins falharam. Por mais de uma semana, minha família recebeu difíceis telefonemas diários com altos e baixos de uma doença que destrói os tecidos de dentro pra fora, fazendo o corpo atacar a si mesmo em uma tentativa desesperada de eliminar um vírus intruso.
Meu irmão mais próximo, que foi meu colega de turma por mais de 10 anos; que dividiu apartamento comigo; que eu vi se casar, se tornar um padrasto preocupado, um avô amoroso; com quem eu tomei meus maiores porres com as melhores cervejas; que dividiu comigo pensamentos, leituras, podcasts, músicas, conhecimentos de informática, tudo com uma visão ácida de mundo. São tantas as memórias nas quais ele está presente, que mal sei o que fica de mim sem a influência dele. Faltaria espaço aqui para descrever a extensão da influência do meu irmão na vida dos meus outros irmãos, dos meus filhos, dos amigos, enfim, dos que ficam.
Porém, apesar de ser um marco na minha trajetória, a morte do meu irmão é um elemento diante de vários outros que vinham abalando meu esperançar nos últimos anos. A dor de um drama pessoal se mistura a um desespero diante de tudo que assola o Brasil nos últimos anos. É algo que se constitui nos porões de uma sociedade sempre distópica, com eventos circulares de angústia e esperança, que reproduz as dores coletivas de um passado mal resolvido. Invasão genocida com sequestro e escravização; ocupação extrativista e exploração contínua; ditaduras e repressões de todos os tipos, com cerceamento de direitos moribundos; ilusão de uma democracia frágil, com a formação de consumidores ao invés de cidadãos; e, mais recentemente, o enfraquecimento progressivo do Estado de Direito, com o retrocesso de conquistas populares construídas com muita luta e sofrimento dos que estavam fora das elites nepotistas, dominantes da política e da economia do país (desde sempre).
Por que meu irmão morreu de Covid-19? Comorbidade como reflexo de seu modo de vida? Desígnios de uma força maior? Falta de cuidados sanitários? Aleatoriedade de uma pandemia? É impossível determinar uma única causa, ao racionalizar a morte de um homem de quase 42 anos, com acesso a bens e serviços de qualidade, em trabalho remoto para distanciamento social. Certamente, a ciência ainda vai conseguir explicar melhor as sutilezas dos efeitos da doença nos diferentes corpos, mas há a certeza de que essas mais de 250 mil mortes só ocorreram porque o vírus esteve circulando.
Um vírus é um quase ser vivo presente na evolução biológica do planeta. Por precisar de células complexas, transita entre hospedeiros com o propósito único de se multiplicar. No processo de transmissão, um vírus respiratório como o sars-cov-2, vai se fortificando para manter sua presença na natureza, circulando entre os humanos em mutação constante para se adaptar às condições que encontra. Os coronavírus não escolhem os corpos humanos, apenas os infectam e se reproduzem para seguirem contaminando o máximo possível de corpos. Mas são organismos muito frágeis, que têm suas membranas rompidas com água e sabão ou álcool a 70%. A esse ponto do raciocínio cabe a pergunta: Como foi possível o Brasil atingir a marca de milhões de infectados e centenas de milhares de mortos? O que acontece para esses números continuarem crescendo, enquanto a média mundial cai?
Há muitas outras perguntas e tentativas desesperadas de respostas, mas cabe uma análise da relação entre a presença de Bolsonaro na presidência da república e os alarmantes dados noticiados neste início de 2021. Meu irmão morreu de Covid-19. Mas, afinal, o que Bolsonaro tem a ver com isso? Sem medo de parecer simplista, respondo com convicção que Bolsonaro tem responsabilidade na morte de todos os cidadãos brasileiros durante a pandemia. Individualmente, ele é mais um péssimo exemplo de ser humano em um político medíocre e mal intencionado, que se aproveitou de um momento social frágil para obter poder, enquanto se deixa ser usado por interesses maiores do que ele mesmo. Mas, coletivamente, ele é a síntese de toda uma nação, pois um presidente democraticamente eleito - mesmo que na base do pior tipo de politicagem explícita -, é maior do que a presença de um sujeito em um cargo. Bolsonaro representa o paradoxo do povo brasileiro, diante de suas angústias históricas, na busca permanente por um lugar no mundo, em uma luta diária pela sobrevivência. É por isso que Bolsonaro, enquanto projeto político, oferece a vida das pessoas invisíveis na sociedade cada vez que nega os perigos da pandemia em suas posturas e falas.
Jair Bolsonaro é o líder que conduz a todos para um futuro estéril. Não importa aqui os que vão por não terem ferramentas para a superação das dicotomias ou por estarem cansados de uma briga a qual não foram convidados. O fato é que uma narrativa elitista (como esta que faço) deixa a maioria da população brasileira à margem das discussões políticas que mantém suas vidas na subalteridade há gerações, mas que agora volta a ser uma questão de morte.
Com a realidade de uma pandemia, os que resistem têm sido levados ao abismo da mesma forma. É nessa roleta russa, provocada pelo atual governo, que encontra-se a sociedade brasileira, com maior ou menor incidência do acaso. Chegamos em um ponto no qual ter pouco ou nenhum dinheiro pode não fazer diferença entre a vida e a morte. As famílias que encontraram condições de se resguardar no isolamento em casa também estão em risco, pois há os que não podem se isolar, os que não querem e os que não têm casa. A população, mais uma vez, empurrada para um debate polarizado, se perde em suas próprias necessidades básicas, em uma briga inócua que fragiliza mais quem já estava fragilizado socialmente. No momento em que se precisa mais do Estado, o governo barganha e as mortes se naturalizam.
Então, sim, Bolsonaro é responsável por todos os efeitos de sua política genocida e negacionista. Cada morte, cada sequela, cada dor. Meu irmão Bruno morreu de Covid-19. Mesmo repetindo isso muitas vezes as palavras continuam sem sentido. Entender o contexto da morte do meu irmão me alivia e me indigna. Não tenho muitas opções, além de assumir que algo mudou em mim, uma vez que meu irmão não está mais no meu cotidiano, entendendo que a minha dor pessoal se mistura com a dor do meu país. Não sei se essas palavras farão sentido pra mais alguém, mas é uma forma de atender à provocação da Eliane Brum sobre “o que fizemos hoje para impedir que Bolsonaro continue nos matando?”
Sei que não é tudo, mas hoje eu escrevi.
Carlos Pedro Macena é jornalista
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