Enquanto as serpentinas não cruzam o céu de Rondônia, um enredo muito menos festivo e muito mais sombrio dorme nas gavetas da Draco II. É a história de um crime que seria resolvido com um simples clique, mas que preferiram transformar em uma ópera de erros — ou de intenções deliberadas.
Em junho de 2018, um inquérito foi aberto para apurar a inserção de doze Autex falsas no sistema do Ibama (Operação Pau Oco).
Para quem não é do ramo: a Autex é o "passaporte" da madeira. Sem ela, nada sai; com ela — mesmo falsa — a floresta vem abaixo.
O processo é rigoroso, ou deveria ser: passa pela Sedam, exige vínculo com a área, vistoria e um inventário detalhado para evitar que aprovem manejo em pleno cerrado ou em terra já devastada.
Vencida a burocracia, entra em cena o Certificado Digital. É a assinatura eletrônica, o rastro digital, o DNA de quem opera o sistema. E é aqui que a trama ganha contornos de um suspense de quinta categoria.
A digital do crime
Qualquer investigação de "beabá" policial começaria pelo óbvio: identificar o CPF, o Certificado Digital e o IP (aquele endereço postal da internet) de quem inseriu as autorizações falsas. Cruzou os dados, achou o autor. Simples assim. Mas na Operação Pau Oco, a lógica foi para o espaço.
Os delegados e promotores não pareciam interessados em encontrar o dono do dedo que apertou a tecla. O propósito era outro, muito mais político e descarado: criminalizar a cúpula da Sedam. Ignoraram o rastro digital e miraram no alvo de conveniência.
O "Laranja" de quem?
Hamilton Santiago, então secretário, não ficou parado. Ele mesmo buscou no Ibama o nome do autor das inserções criminosas e entregou de bandeja aos delegados e ao Ministério Público. E o que fizeram as autoridades? Cruzaram os braços.
O argumento beira o ridículo: dizem que o criminoso identificado é apenas um "auxiliar de mecânica", um reles laranja. Ora, se é laranja, quem é o dono do pomar? Essa pergunta nunca foi respondida porque, simplesmente, nunca quiseram investigar o autor.
Perguntas no ar
Passados quase oito anos, o crime que seria resolvido com um WhatsApp para o Ibama continua sem desfecho. O que explica tamanha desídia? Incompetência técnica dos investigadores ou um esforço coordenado para acobertar os verdadeiros donos do negócio?
As respostas estão no ar, mas o silêncio das Corregedorias-Gerais da Polícia Civil e do Ministério Público é ensurdecedor. O povo de Rondônia merece mais do que um enredo de Carnaval mal escrito. Merece justiça, sem cartas marcadas.
Boa folia a todos e todas!
14 de fevereiro de 2018, sábado de carnaval.
Daniel Pereira, ex-governador de Rondônia e uma das muitas vítimas da Operação Pau Oco.
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