Hoje, Dia das Mães, saí cedo da ipueira para passar o dia com minha mãe. Peguei a velha estrada de Barra, passando pelo Bola, pelo Salgado, por Casserengue, até chegar a Solânea. Estrada antiga, de barro, dessas que parecem guardar dentro do chão as pegadas de gerações inteiras. Fui debaixo de chuva, com o vidro molhado e a memória acordada.
Na volta, já no fim da tarde, a chuva tinha amansado. E eu vinha olhando aquela imensidão do Curimataú paraibano, aos pés da Serra da Caxeixa. A Caatinga inteira vestida de verde, numa beleza tão funda que não cabe direito nas palavras. Centenas de plantas diferentes, cada uma com sua forma, sua resistência, seu segredo. Os gaviões e os carcarás pousados nos fios de arame. Os passarinhos descendo para beber água nas poças d’água da estrada. E acima de tudo, aquele céu enorme de inverno sertanejo, carregado e luminoso ao mesmo tempo.
Já atravessei muitos biomas nesse país. Vi a vastidão do Centro-Oeste, a exuberância amazônica, os Pampas do Sul. Mas nada se compara à Caatinga. Ela é um milagre silencioso. Na seca, as plantas ficam cinzentas, parecem mortas. Mas estão apenas esperando. Bastam as primeiras chuvas e tudo renasce com uma força antiga, quase sagrada.
E então me veio a lembrança de menino.
Meu pai saía de Barra da Rosa rumo a Solânea, e aquela era justamente a estrada das nossas viagens. O primeiro ponto de parada era no Bola, na casa de seu Bideco. Homem já velho naquele tempo, os filhos espalhados pelo mundo, mistura de índio, negro e português. A pele tinha a cor do couro curtido pelo sol. Andava sempre de chapéu de couro, como se fosse parte da própria paisagem.
Era amigo do meu avô. Depois ficou amigo do meu pai. E nós sempre parávamos ali. Saía da Barra, chegava em seu Bideco. Tomava água fria, comia um pedaço de rapadura, descansava um instante da viagem e seguia estrada.
Hoje, tantos anos depois, parei novamente ali.
Já não é seu Bideco. É outra família, outro povo, outro tempo. Mas havia alguma coisa ainda suspensa no ar. Como se as lembranças permanecessem morando debaixo das árvores, misturadas ao cheiro da terra molhada.
E fiquei pensando no meu avô, no meu pai, na infância que passou. Pensei que talvez a felicidade verdadeira more justamente nisso: na memória de uma estrada de barro, numa parada simples para beber água, no verde inesperado da Caatinga depois da chuva e na sensação profunda de que, diante da natureza e do tempo, continuamos sendo apenas meninos olhando o mundo pela primeira vez.
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