Recebi há pouco, de meu irmão Chico, uma fotografia de Solânea. E foi como se alguém tivesse aberto, devagarinho, uma janela esquecida dentro de mim.
De repente, a infância inteira voltou.
Naquele tempo, o inverno parecia morar na cidade. A chuva chegava mansa, cobria os dias de neblina e permanecia ali por meses, como quem não tinha destino nem vontade de partir. As serras desapareciam atrás da cerração, e as ruas amanheciam envolvidas naquele frio úmido que entrava pelas frestas da casa sem pedir licença.
As janelas choravam água. Minha mãe improvisava panos para conter o vento, enquanto o fogão a lenha aceso espalhava um calor pequeno e precioso no meio da casa. Ao redor dele, as vozes ficavam mais lentas, as histórias mais bonitas, e o tempo parecia caminhar descalço.
Mas havia também o lado duro daqueles dias.
O banho era quase um ato de coragem. Levantar cedo para ir à escola, debaixo de chuva, atravessando ruas enlameadas e sentindo o vento frio cortar o rosto, parecia uma pequena batalha diária. E a cama ficava para trás como um abrigo impossível de abandonar.
À noite, a sopa quente subia da panela em nuvens perfumadas, aquecendo mais que o corpo. Aquecia o coração cansado daquele menino magro do brejo. E, espalhados pelos pés e pelas pernas da meninada, vinham os bichos de pé, as frieiras e os mucuins, pequenas crueldades da infância brejeira que hoje a memória quase transforma em ternura.
Talvez seja esse o mistério do tempo.
As dificuldades passam primeiro pelo corpo, mas depois acabam repousando na alma como delicadeza. O que um dia foi desconforto vira aconchego. O que foi sofrimento vira saudade.
Ao olhar essa fotografia, sinto novamente o cheiro da madeira queimando no fogão, ouço o barulho da chuva pingando nas telhas e vejo a neblina descendo silenciosa pelas ruas de Solânea.
E percebo que certas lembranças nunca envelhecem.
Elas apenas ficam esperando uma chuva qualquer para voltar.
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