É uma decisão política explosiva, Luis Inácio.
Se o Governo Federal acelerar as pesqusas na Raízen, em Piracicaba (SP), que já possui a certificação ISCC CORSIA, nosso etanol de cana pode substituir a querosene de aviação Jet A-1 como combustível de aviação sustentável - SAF (Sustainable Aviation Fuel).
Antes da guerra, a nafta custava US$ 1.100 por tonelada. Seu preço não disparou só com a cotação do barril de petróleo. Sua produção depende da eficiência logística das refinarias bombardeadas que a produzem.
O Brasil não precisa de refinarias para produzir SAF via Etanol, a chamada Rota ATJ (Alcohol-To-Jet), da qual a LanzaJet é líder mundial para superar a barreira da densidade energética da querosene de aviação.
Basta integrar nossas destilarias de etanol (Usina São João, Cosan) às plantas de transformação química, aos laboratórios de certificação e disparar um programa emergencial para abastecer os nossos aviões, para reduzir a pressão do custo do petróleo no modal aéreo e mostrar ao mundo capacidade tecnológica em cadeia produtiva organizada, a saber:
Com a Geo Biogás & Tech a Petrobras, no Paraná e em São Paulo, o pólo petroquímico de Cubatão já está sendo redirecionado para o coprocessamento de óleos vegetais (rota HEFA) para unidades de conversão de álcoois e biogás em bioquerosene sintético.
Em Manaus (AM), a Brasil BioFuels (BBF) e a Vibra trabalham para que a biorrefinaria da Zona Franca, cujo foco inicial era o óleo de palma, adapte o desenho de sua infraestrutura logística para integrar rotas de álcoois vegetais nativos da região amazônica, como a pupunha, o vegetal mais viscoso do planeta.
Em Mataripe (BA), a Acelen, antiga Refinaria Landulpho Alves, agora anunciou um investimento bilionário para produzir combustíveis renováveis. A planta está sendo adaptada para processar insumos biológicos, com o objetivo de exportar SAF para os mercados europeu e americano, onde as metas de descarbonização são mais rígidas.
Todos sabemos dos riscos não só do congelamento mas da falta de lubrificação no contato direto entre o SAF e os componentes metálicos dos trens de força da Pratt & Whitney e Rolls-Royce. Os nomes são lindos: Éter Monometílico de Dietilenoglicol (DiEGME) ou etilenoglicol. Eles podem, em tese, alimentar as turbinas mesmo a - 47º Celsius, limite de segurança técnico.
O SAF, a etanol, ainda custa entre US$ 2.000 e US$ 2.500,00 a tonelada. Com os ganhos de escala, e a explosão do preço do petróleo "Brent", muita economia expressiva iremos obter, além de incentivarmos e acelerarmos nosso "upgrade" tecnológico.
O processo Alcohol-to-Jet (ATJ) é a "ponte química" que transforma o etanol em um combustível idêntico ao querosene de aviação fóssil, permitindo que ele seja usado em voos transatlânticos sem precisar de novos motores ou aditivos extras de lubricidade.
A temperatura de congelamento do querosene de aviação (QAV-1 ou Jet A-1) é de, no máximo, -47 °C, conforme as normas internacionais e as especificações da Petrobras.
Diferente do querosene, que é um hidrocarboneto (repele água), o etilenoglicol é altamente higroscópico, ou seja, ele possui uma afinidade muito forte com a água.
O querosene de aviação sempre contém pequenas quantidades de água dissolvida. Quando a aeronave sobe e a temperatura cai, essa água se separa do combustível (água livre). O aditivo FSII (baseado em glicol) sai do querosene e se dissolve preferencialmente nessa "água livre".
Os complexos que produzem os aditivos de lubricidade (ésteres e amidas) para combustíveis (sejam eles para querosene de aviação ou para biocombustíveis como o bioquerosene) são grandes unidades de especialidades químicas e petroquímicas.
No Brasil, os principais polos capacitados para essa produção ou para a formulação desses pacotes de aditivos são:
Polo Petroquímico de Camaçari (Bahia): Abriga empresas de química fina e especialidades (como a BASF e a Deten) que produzem surfactantes e precursores para aditivos de performance.
Polo Petroquímico de Triunfo (Rio Grande do Sul): Unidades da Braskem e empresas satélites que trabalham com polímeros e aditivos especiais.
Complexo de Paulínia (São Paulo): Região estratégica onde empresas como a Afton Chemical, Innospec e Lubrizol possuem unidades de mistura e fabricação de aditivos de performance para combustíveis globais.
E tem mais: o Brasil tem Centros de Tecnologia e Homologação que validam a química desses ésteres e hidrocarbonetos: em São José dos Campos (SP), ligado ao ITA e à Embraer, o Sirtec é fundamental na certificação de motores para que o querosene derivado de etanol possa ser usado sem restrições.
Os catalizadores que permitem a desidratação e a oligomerização do SAF são caríssimos: o Senai Cetiqt (RJ) sabe fazer isso. Só falta dinheiro e coragem para peitar a Dow Chemical, a Royal Dutch Shell e a BASF que produzem mas não vendem no Brasil o etilenoglicol - só exportam. Aqui jogam um miserê para o agronegócio.
Podemos produzi-los, mas a atual política petroquímica brasileira privilegia a produção de... fertilizantes. Vira a chave: chega de açúcar, vamos produzir etanol, vamos aumentar na escala industrial mínima nossa capacidade, Ara.
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