Leio A Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, num domingo desses compridos.
O sol já alto,
mas o dia ainda meio parado,
como se o mundo estivesse tomando fôlego.
O vento passa leve,
levantando a poeira fina do terreiro.
Um cachorro dorme esticado na sombra.
Lá longe, um canto de passarinho insiste.
E eu com o livro na mão.
Leio uma página.
Paro.
Olho o tempo.
Tem coisa ali que não desce ligeiro.
Fica atravessada.
Ele fala do cansaço.
Mas não é esse de corpo cansado de roça,
de sol, de caminho.
Esse a gente entende.
É outro.
Mais quieto.
Mais fundo.
Um cansaço de dentro,
de quem não sabe mais parar.
Fecho o livro um instante.
Fico só escutando o dia.
O rangido seco de um galho,
o bater distante de uma porta,
o mundo andando devagar.
E percebo:
mesmo aqui,
no meio desse sossego todo,
tem uma parte de mim inquieta.
Pedindo pressa.
Pedindo tarefa.
Pedindo alguma coisa pra provar.
Como se esse silêncio não bastasse.
Como se eu devesse alguma coisa
a alguém que nem sei quem é.
Volto pro livro.
E entendo sem querer entender demais:
o cansaço não vem só do que faço.
Vem do que não me permito.
Parar.
Ficar.
Ser.
O domingo segue.
O sol muda de lugar,
a sombra cresce devagar,
e o tempo não cobra nada.
Talvez seja isso que mais falta:
um pedaço de vida
que não precise dar resultado.
Só existir.
Como esse silêncio comprido,
que não produz nada,
mas sustenta tudo.
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