O vírus Nipah gerou alerta na Índia após causar um novo surto no início deste ano. Autoridades sanitárias indianas estão realizando monitoramento do surto na província de Bengala Ocidental, onde cinco casos foram confirmados entre profissionais da saúde.
Este vírus foi identificado pela primeira vez pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1999 após um surto entre criadores de porcos na Malásia.
O Brasil Escola conversou com Filipe Piastrelli, infectologista e gerente médico do Serviço de Infecção Hospitalar do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, e com Vanessa Lentini da Costa Zarpellom, infectologista do Hospital Santa Marcelina, para explicar as principais dúvidas sobre o vírus Nipah.
O que é o vírus Nipah?
O vírus Nipah é um vírus do tipo zoonótico, que pode ser transmitido de animais para humanos, conceitua Vanessa Zarpellom.
Onde surgiu o vírus Nipah?
Os primeiros surtos do vírus Nipah ocorreram no Sudeste Asiático e no Sul da Ásia. A OMS registrou o agente pela primeira vez em 1999.
Países como Malásia, Bangladesh e Índia concentram a maioria dos casos de Nipah já descritos até hoje, afirma Filipe Piastrelli.
Por que o vírus Nipah é comum na Índia?
A recorrência do vírus na Índia acontece devido à presença de morcegos que carregam o vírus e a interação frequente entre seres humanos e o ambiente natural
O padrão pode ser explicada por dois fatores, justifica o infectologista:
Transmissão do animal para o ser humano: o contato com morcegos ou o consumo de alimentos contaminados por eles pode reintroduzir o vírus periodicamente.
Transmissão entre pessoas: após a infecção de um indivíduo, podem ocorrer surtos localizados, principalmente entre familiares e cuidadores que mantêm contato próximo com o paciente.
O vírus Nipah pode chegar ao Brasil?
O vírus Nipah ainda não foi registrado no Brasil, nem mesmo a presença de seu principal reservatório natural, constata o médico. Filipe afirma que os casos continuam restritos a regiões da Ásia. A seguir o médico explica se o agente pode provocar uma pandemia.
O vírus Nipah pode causar uma pandemia?
Em relação ao risco do Nipah causar uma pandemia, Piastrelli reforça que o risco é considerado baixo diante das características atuais do vírus:
✅ Baixa capacidade de transmissão: cada pessoa infectada transmite o vírus, em média, para menos de uma outra pessoa, diferentemente de vírus como o da Covid-19 ou do sarampo, que apresentam alta transmissibilidade.
✅ Transmissão limitada entre humanos: a infecção exige contato próximo com pessoas gravemente doentes, geralmente em ambientes específicos, como hospitais ou residências
No entanto, o Nipah preocupa autoridades de saúde devido à alta taxa de mortalidade e ao risco teórico de mutações que possam causar alteração de seu comportamento no futuro, afirma o infectologista.
Como o vírus Nipah é transmitido?
A transmissão do vírus Nipah pode acontecer de três principais formas, lista Filipe:
Contato direto com animais infectados: exposição a secreções, saliva, tecidos de morcegos ou de outros animais contaminados.
Alimentos contaminados: consumo de alimentos crus que tiveram contato com secreções de morcegos, como frutas mordidas ou a seiva fresca de tamareira, comum em algumas regiões da Ásia.
Transmissão entre pessoas: ocorre por contato próximo com secreções de indivíduos doentes, como saliva ou gotículas respiratórias, principalmente em ambientes domiciliares ou hospitalares. Essa transmissão exige contato prolongado e próximo; não há evidências de que pessoas sem sintomas transmitam o vírus.
Sintomas do vírus Nipah
Segundo Filipe Piastrelli, a infecção do Nipah varia de casos assintomáticos até quadros extremamente graves. A taxa de mortalidade é alta, podendo chegar a 75% em alguns surtos, alerta o médico.
Entre os sintomas iniciais, estão:
Febre
Dor de cabeça
Dor muscular
Vômitos
Dor de garganta
Ao evoluir, a doença pode causar sintomas neurológicos graves, tais como:
Confusão mental
Tontura
Convulsões
Coma
Complicações do vírus Nipah
O médico infectologista lista algumas complicações decorrentes de casos graves do vírus Nipah:
Encefalite (inflamação do cérebro): comum nos casos graves e capaz de deixar sequelas neurológicas permanentes nos sobreviventes.
Comprometimento respiratório: incluindo dificuldade grave para respirar e insuficiência pulmonar.
Miocardite: inflamação do músculo do coração, observada em parte dos pacientes
Tratamento do vírus Nipah
A infectologista Vanessa Zarpellom explica que existem alguns antivirais contra o Nipah sendo testados, mas ainda não há comprovação científica da eficácia desses medicamentos. Um destes é o mesmo que se usava no tratamento da hepatite C, que é a ribavirina.
Filipe reforça também que ainda não tem vacina aprovada contra o vírus, Atualmente o tratamento disponível é de suporte, isto é, direcionado à manutenção das funções vitais e manejo das complicações:
Hidratação
Controle de convulsões
Suporte respiratório, incluindo ventilação mecânica, quando necessário
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