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Sabado, 25 de Abril de 2026

Saúde

Amazônia inicia formação inédita de enfermeiros indígenas em mestrado profissional

Workshop internacional no Alto Rio Negro projeta um novo modelo de cuidado intercultural no Brasil, integrando ciência, território e saberes ancestrais, com apoio do Acordo Cofen/CAPES e participação de pesquisadora da Universidade de Michigan

Hoje Amazônia
Por Hoje Amazônia
Amazônia inicia formação inédita de enfermeiros indígenas em mestrado profissional
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No extremo noroeste do Brasil, onde a diversidade cultural se expressa em dezenas de povos, línguas e modos de vida, a enfermagem brasileira vive um momento histórico. O Alto Rio Negro sediou, entre os dias 21 e 25 de abril de 2026, o Workshop Internacional de Enfermagem Indígena, uma iniciativa que não apenas reuniu especialistas, gestores e lideranças, mas inaugurou, na prática, um novo paradigma de formação, cuidado e produção de conhecimento em saúde.

Mais do que um evento acadêmico, o encontro simboliza uma mudança estrutural: a construção de uma enfermagem intercultural, ancorada no território, que integra ciência, políticas públicas e saberes indígenas como base para a transformação do cuidado em saúde.

A ação está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem no Contexto Amazônico (UFAM), no âmbito do Acordo Cofen/CAPES, e ao projeto estratégico de tecnologia e inovação para a gestão e o cuidado intercultural, voltado à integração entre conhecimentos indígenas e ocidentais.

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Inserido nesse cenário, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro revela a complexidade de um dos maiores territórios de saúde indígena do país, com mais de 294 mil km² de extensão, cerca de 30 mil indígenas distribuídos em mais de 700 aldeias e pertencentes a 23 etnias, em uma região marcada pela diversidade linguística e cultural.

A assistência à saúde é organizada a partir de polos base e equipes multidisciplinares que atuam predominantemente em áreas de difícil acesso, onde o deslocamento ocorre majoritariamente por vias fluviais, muitas vezes exigindo dias de viagem entre comunidades. Nesse contexto, os profissionais de saúde enfrentam desafios estruturais e logísticos permanentes, como limitações de infraestrutura, escassez de recursos humanos e necessidade de remoções para serviços de maior complexidade. Persistem ainda importantes agravos à saúde, como malária, doenças respiratórias e diarreicas, associados às condições ambientais e de saneamento, além dos desafios próprios da interculturalidade do cuidado, como barreiras linguísticas e a necessária integração entre saberes tradicionais e práticas biomédicas.

O território como ponto de partida — a programação incluiu visitas técnicas a comunidades indígenas, unidades de saúde, à Casa de Saúde Indígena (CASAI) e às estruturas do DSEI Alto Rio Negro. Mais do que uma agenda protocolar, tratou-se de um processo de escuta qualificada, imersão territorial e construção coletiva de conhecimento.

A delegação esteve na Ilha de Duraka, localizada no Rio Negro e considerada território sagrado para os povos Tukano. No local, visitou a Escola Indígena Municipal Marechal Dutra e o polo base de saúde, dialogando diretamente com profissionais que atuam na linha de frente da assistência. A experiência evidenciou como os aspectos culturais, espirituais e territoriais se entrelaçam na organização do cuidado.

No mesmo dia, a comitiva seguiu para a Comunidade Indígena Waruá, território do povo Dâw, às margens do Rio Negro, onde visitou a Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI Waruá), vinculada ao DSEI Alto Rio Negro. A vivência revelou, de forma concreta, os desafios logísticos da assistência em áreas remotas, ao mesmo tempo em que destacou a potência das práticas locais e a necessidade de soluções construídas a partir do território.

Participaram dessas atividades a presidente do Coren-AM, Alex Sandra Leocádio; o conselheiro federal do Cofen e coordenador da Câmara Técnica de Enfermagem em Atenção à Saúde dos Povos Originários, João Batista Lima; o presidente do Coren-ES, Wilton Patrício; o assessor e gestor do Programa de Mestrado e Doutorado Profissional Cofen/CAPES, Neyson Freire; o diretor da Escola de Enfermagem da UFAM, Esron Rocha; a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem no Contexto Amazônico, Hadelândia Milon; a pesquisadora Rizioléia Pina; o conselheiro secretário do Coren-AM, Zilmar Filho; e a professora Jeanne-Marie Stacciarini, decana para assuntos globais e diretora do Centro Colaborador da OPAS/OMS da escola de enfermagem da Universidade de Michigan.

No segundo dia, a delegação participou de reunião institucional na sede do DSEI, com a presença do coordenador distrital, técnico de enfermagem Valmir Delgado, reforçando o alinhamento estratégico entre formação, gestão e a organização dos serviços de saúde indígena. O encontro evidenciou o papel fundamental da enfermagem também nos espaços de gestão, especialmente em territórios de alta complexidade como o Alto Rio Negro.

Na sequência, foram realizadas visitas à Casa de Saúde Indígena (CASAI), ao Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira e à Unidade Básica de Saúde Albino Couto, ampliando a compreensão sobre os fluxos assistenciais, a integração entre os níveis de atenção e os desafios operacionais da rede de saúde na região.

No terceiro dia, a delegação participou de reunião com gestores locais, reunindo representantes da FUNAI, da FOIRN e do DSEI Alto Rio Negro, em um espaço de diálogo interinstitucional voltado ao fortalecimento das ações de saúde indígena na região. O encontro contou ainda com a participação do secretário municipal de Saúde, enfermeiro Chrystian Barros, e das enfermeiras discentes do programa de mestrado, reforçando o alinhamento entre as esferas municipal, federal e as organizações indígenas.

Ao longo dessas atividades, os membros da delegação vivenciaram, em campo, os desafios cotidianos da assistência em regiões remotas, desde barreiras geográficas até especificidades culturais que impactam diretamente o cuidado. Ao mesmo tempo, reconheceram a força dos saberes tradicionais e sua centralidade na construção de respostas mais efetivas, equitativas e culturalmente sensíveis.

Mestres indígenas em Enfermagem — o programa de mestrado profissional, fruto do Acordo Cofen/CAPES, em parceria com a UFAM, ofertou vagas exclusivas para enfermeiros indígenas, consolidando uma política inédita de formação qualificada em regiões de difícil acesso.

Os dez profissionais selecionados atuam diretamente nas comunidades do Alto Rio Negro e passam a desenvolver pesquisas e intervenções aplicadas às suas próprias realidades. Segundo a coordenadora do programa, Hadelândia Milon, a iniciativa representa um avanço estratégico para a saúde indígena no Brasil. “Estamos formando profissionais que conhecem profundamente seus territórios, suas culturas e suas necessidades. Isso transforma não apenas a assistência, mas também a produção do conhecimento em saúde”, destacou.

Para a presidente do Coren-AM, Alex Sandra Leocádio, a iniciativa representa um avanço direto na qualidade da assistência de enfermagem na região e evidencia o papel estratégico do Sistema Cofen/Conselhos Regionais. “Essa iniciativa impacta diretamente a qualidade da assistência de enfermagem aos povos originários, ao qualificar profissionais que atuam no próprio território e compreendem suas especificidades. É fundamental destacar o protagonismo do Cofen ao investir na formação de enfermeiros em regiões de difícil acesso, promovendo equidade e fortalecendo o cuidado onde ele é mais necessário”, afirmou.

Inovação com propósito — a formação proposta no âmbito do mestrado profissional no contexto amazônico vai além da dimensão teórica e se ancora na produção de soluções concretas, aplicáveis e transformadoras, desenvolvidas pelos próprios enfermeiros indígenas a partir das necessidades reais do território. Trata-se de um modelo formativo orientado à prática, no qual o conhecimento é construído em diálogo direto com os desafios cotidianos da assistência à saúde no contexto amazônico.

Entre os principais estudos, destacam-se a elaboração de protocolos de enfermagem interculturais, adaptados às realidades socioculturais e linguísticas da região; o desenvolvimento de tecnologias digitais voltadas ao monitoramento de doenças como a malária e condições crônicas em mulheres indígenas; a criação de aplicativos para acompanhamento de gestantes e fortalecimento da adesão ao tratamento; além da construção de guias e manuais técnicos direcionados à prática assistencial em contextos indígenas.

O projeto também avança na proposição de modelos inovadores de cuidado, como a casa de parto indígena, e no desenvolvimento de instrumentos estratégicos para a gestão do trabalho em enfermagem, articulados à produção científica aplicada à realidade amazônica. Mais do que incorporar tecnologias, a iniciativa inaugura uma lógica de inovação centrada no território, rompendo com modelos importados e consolidando soluções construídas com as comunidades, a partir de seus saberes, práticas e modos de vida.

Ciência global, impacto local — a dimensão internacional do workshop foi evidenciada na conferência magna da pesquisadora Jeanne-Marie Stacciarini, da Universidade de Michigan, uma das principais referências mundiais em saúde global e enfermagem de práticas avançadas.

Ao abordar liderança e comunicação intercultural, a pesquisadora destacou que o futuro da enfermagem passa pela capacidade de articular conhecimento científico, experiência comunitária e incidência política. “A Enfermagem de Prática Avançada conecta o cuidado clínico, as evidências científicas e as políticas de saúde. Quando incorporamos a comunicação intercultural e o conhecimento das comunidades, construímos soluções mais eficazes, justas e sustentáveis”, afirmou.

Para Stacciarini, o desafio contemporâneo é transformar conhecimento em impacto real: “Promover saúde em contextos interculturais exige escuta, respeito e parceria com as comunidades. É assim que construímos respostas mais humanas, equitativas e duradouras”, finalizou.

A programação científica foi complementada pelo painel temático “Sistematização de experiências de enfermeiros(as) indígenas no cuidado intercultural”, que contou com a participação dos enfermeiros mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem no Contexto Amazônico (UFAM), atuantes em São Gabriel da Cachoeira. O momento evidenciou o protagonismo desses profissionais na produção de conhecimento aplicado, ao compartilhar experiências construídas no cotidiano dos serviços de saúde indígena.

A conferência e o painel, em conjunto, reforçaram o papel estratégico da enfermagem brasileira no cenário global e evidenciaram como experiências desenvolvidas na Amazônia dialogam com agendas internacionais voltadas à equidade, inovação e fortalecimento dos sistemas de saúde.

Um modelo para o Brasil — a articulação entre UFAM, Cofen, Coren-AM, DSEI, FOIRN, SESA, IFAM e gestores locais consolida uma rede estratégica que reposiciona a enfermagem como protagonista no enfrentamento das desigualdades em saúde.

O que se constrói no Alto Rio Negro não é apenas uma experiência local. É um modelo replicável, capaz de inspirar políticas públicas, programas de formação e estratégias de cuidado em outras regiões do Brasil e do mundo.

Ao integrar ciência, cultura e território, a iniciativa projeta uma enfermagem mais preparada para enfrentar a complexidade dos sistemas de saúde contemporâneos e, sobretudo, mais comprometida com a equidade e a justiça social.

No coração da Amazônia, ganha forma uma nova geração de enfermeiros, ainda em processo de formação avançada, mas já profundamente conectada à ciência, enraizada na cultura e comprometida com a transformação das realidades em que atua.

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