No extremo noroeste do Brasil, onde a diversidade cultural se expressa em dezenas de povos, línguas e modos de vida, a enfermagem brasileira vive um momento histórico. O Alto Rio Negro sediou, entre os dias 21 e 25 de abril de 2026, o Workshop Internacional de Enfermagem Indígena, uma iniciativa que não apenas reuniu especialistas, gestores e lideranças, mas inaugurou, na prática, um novo paradigma de formação, cuidado e produção de conhecimento em saúde.
Mais do que um evento acadêmico, o encontro simboliza uma mudança estrutural: a construção de uma enfermagem intercultural, ancorada no território, que integra ciência, políticas públicas e saberes indígenas como base para a transformação do cuidado em saúde.
A ação está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem no Contexto Amazônico (UFAM), no âmbito do Acordo Cofen/CAPES, e ao projeto estratégico de tecnologia e inovação para a gestão e o cuidado intercultural, voltado à integração entre conhecimentos indígenas e ocidentais.
Inserido nesse cenário, o Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro revela a complexidade de um dos maiores territórios de saúde indígena do país, com mais de 294 mil km² de extensão, cerca de 30 mil indígenas distribuídos em mais de 700 aldeias e pertencentes a 23 etnias, em uma região marcada pela diversidade linguística e cultural.
A assistência à saúde é organizada a partir de polos base e equipes multidisciplinares que atuam predominantemente em áreas de difícil acesso, onde o deslocamento ocorre majoritariamente por vias fluviais, muitas vezes exigindo dias de viagem entre comunidades. Nesse contexto, os profissionais de saúde enfrentam desafios estruturais e logísticos permanentes, como limitações de infraestrutura, escassez de recursos humanos e necessidade de remoções para serviços de maior complexidade. Persistem ainda importantes agravos à saúde, como malária, doenças respiratórias e diarreicas, associados às condições ambientais e de saneamento, além dos desafios próprios da interculturalidade do cuidado, como barreiras linguísticas e a necessária integração entre saberes tradicionais e práticas biomédicas.
O território como ponto de partida — a programação incluiu visitas técnicas a comunidades indígenas, unidades de saúde, à Casa de Saúde Indígena (CASAI) e às estruturas do DSEI Alto Rio Negro. Mais do que uma agenda protocolar, tratou-se de um processo de escuta qualificada, imersão territorial e construção coletiva de conhecimento.
A delegação esteve na Ilha de Duraka, localizada no Rio Negro e considerada território sagrado para os povos Tukano. No local, visitou a Escola Indígena Municipal Marechal Dutra e o polo base de saúde, dialogando diretamente com profissionais que atuam na linha de frente da assistência. A experiência evidenciou como os aspectos culturais, espirituais e territoriais se entrelaçam na organização do cuidado.
No mesmo dia, a comitiva seguiu para a Comunidade Indígena Waruá, território do povo Dâw, às margens do Rio Negro, onde visitou a Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI Waruá), vinculada ao DSEI Alto Rio Negro. A vivência revelou, de forma concreta, os desafios logísticos da assistência em áreas remotas, ao mesmo tempo em que destacou a potência das práticas locais e a necessidade de soluções construídas a partir do território.
Participaram dessas atividades a presidente do Coren-AM, Alex Sandra Leocádio; o conselheiro federal do Cofen e coordenador da Câmara Técnica de Enfermagem em Atenção à Saúde dos Povos Originários, João Batista Lima; o presidente do Coren-ES, Wilton Patrício; o assessor e gestor do Programa de Mestrado e Doutorado Profissional Cofen/CAPES, Neyson Freire; o diretor da Escola de Enfermagem da UFAM, Esron Rocha; a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem no Contexto Amazônico, Hadelândia Milon; a pesquisadora Rizioléia Pina; o conselheiro secretário do Coren-AM, Zilmar Filho; e a professora Jeanne-Marie Stacciarini, decana para assuntos globais e diretora do Centro Colaborador da OPAS/OMS da escola de enfermagem da Universidade de Michigan.
No segundo dia, a delegação participou de reunião institucional na sede do DSEI, com a presença do coordenador distrital, técnico de enfermagem Valmir Delgado, reforçando o alinhamento estratégico entre formação, gestão e a organização dos serviços de saúde indígena. O encontro evidenciou o papel fundamental da enfermagem também nos espaços de gestão, especialmente em territórios de alta complexidade como o Alto Rio Negro.
Na sequência, foram realizadas visitas à Casa de Saúde Indígena (CASAI), ao Hospital de Guarnição de São Gabriel da Cachoeira e à Unidade Básica de Saúde Albino Couto, ampliando a compreensão sobre os fluxos assistenciais, a integração entre os níveis de atenção e os desafios operacionais da rede de saúde na região.
No terceiro dia, a delegação participou de reunião com gestores locais, reunindo representantes da FUNAI, da FOIRN e do DSEI Alto Rio Negro, em um espaço de diálogo interinstitucional voltado ao fortalecimento das ações de saúde indígena na região. O encontro contou ainda com a participação do secretário municipal de Saúde, enfermeiro Chrystian Barros, e das enfermeiras discentes do programa de mestrado, reforçando o alinhamento entre as esferas municipal, federal e as organizações indígenas.
Ao longo dessas atividades, os membros da delegação vivenciaram, em campo, os desafios cotidianos da assistência em regiões remotas, desde barreiras geográficas até especificidades culturais que impactam diretamente o cuidado. Ao mesmo tempo, reconheceram a força dos saberes tradicionais e sua centralidade na construção de respostas mais efetivas, equitativas e culturalmente sensíveis.
Mestres indígenas em Enfermagem — o programa de mestrado profissional, fruto do Acordo Cofen/CAPES, em parceria com a UFAM, ofertou vagas exclusivas para enfermeiros indígenas, consolidando uma política inédita de formação qualificada em regiões de difícil acesso.
Os dez profissionais selecionados atuam diretamente nas comunidades do Alto Rio Negro e passam a desenvolver pesquisas e intervenções aplicadas às suas próprias realidades. Segundo a coordenadora do programa, Hadelândia Milon, a iniciativa representa um avanço estratégico para a saúde indígena no Brasil. “Estamos formando profissionais que conhecem profundamente seus territórios, suas culturas e suas necessidades. Isso transforma não apenas a assistência, mas também a produção do conhecimento em saúde”, destacou.
Para a presidente do Coren-AM, Alex Sandra Leocádio, a iniciativa representa um avanço direto na qualidade da assistência de enfermagem na região e evidencia o papel estratégico do Sistema Cofen/Conselhos Regionais. “Essa iniciativa impacta diretamente a qualidade da assistência de enfermagem aos povos originários, ao qualificar profissionais que atuam no próprio território e compreendem suas especificidades. É fundamental destacar o protagonismo do Cofen ao investir na formação de enfermeiros em regiões de difícil acesso, promovendo equidade e fortalecendo o cuidado onde ele é mais necessário”, afirmou.
Inovação com propósito — a formação proposta no âmbito do mestrado profissional no contexto amazônico vai além da dimensão teórica e se ancora na produção de soluções concretas, aplicáveis e transformadoras, desenvolvidas pelos próprios enfermeiros indígenas a partir das necessidades reais do território. Trata-se de um modelo formativo orientado à prática, no qual o conhecimento é construído em diálogo direto com os desafios cotidianos da assistência à saúde no contexto amazônico.
Entre os principais estudos, destacam-se a elaboração de protocolos de enfermagem interculturais, adaptados às realidades socioculturais e linguísticas da região; o desenvolvimento de tecnologias digitais voltadas ao monitoramento de doenças como a malária e condições crônicas em mulheres indígenas; a criação de aplicativos para acompanhamento de gestantes e fortalecimento da adesão ao tratamento; além da construção de guias e manuais técnicos direcionados à prática assistencial em contextos indígenas.
O projeto também avança na proposição de modelos inovadores de cuidado, como a casa de parto indígena, e no desenvolvimento de instrumentos estratégicos para a gestão do trabalho em enfermagem, articulados à produção científica aplicada à realidade amazônica. Mais do que incorporar tecnologias, a iniciativa inaugura uma lógica de inovação centrada no território, rompendo com modelos importados e consolidando soluções construídas com as comunidades, a partir de seus saberes, práticas e modos de vida.
Ciência global, impacto local — a dimensão internacional do workshop foi evidenciada na conferência magna da pesquisadora Jeanne-Marie Stacciarini, da Universidade de Michigan, uma das principais referências mundiais em saúde global e enfermagem de práticas avançadas.
Ao abordar liderança e comunicação intercultural, a pesquisadora destacou que o futuro da enfermagem passa pela capacidade de articular conhecimento científico, experiência comunitária e incidência política. “A Enfermagem de Prática Avançada conecta o cuidado clínico, as evidências científicas e as políticas de saúde. Quando incorporamos a comunicação intercultural e o conhecimento das comunidades, construímos soluções mais eficazes, justas e sustentáveis”, afirmou.
Para Stacciarini, o desafio contemporâneo é transformar conhecimento em impacto real: “Promover saúde em contextos interculturais exige escuta, respeito e parceria com as comunidades. É assim que construímos respostas mais humanas, equitativas e duradouras”, finalizou.
A programação científica foi complementada pelo painel temático “Sistematização de experiências de enfermeiros(as) indígenas no cuidado intercultural”, que contou com a participação dos enfermeiros mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem no Contexto Amazônico (UFAM), atuantes em São Gabriel da Cachoeira. O momento evidenciou o protagonismo desses profissionais na produção de conhecimento aplicado, ao compartilhar experiências construídas no cotidiano dos serviços de saúde indígena.
A conferência e o painel, em conjunto, reforçaram o papel estratégico da enfermagem brasileira no cenário global e evidenciaram como experiências desenvolvidas na Amazônia dialogam com agendas internacionais voltadas à equidade, inovação e fortalecimento dos sistemas de saúde.
Um modelo para o Brasil — a articulação entre UFAM, Cofen, Coren-AM, DSEI, FOIRN, SESA, IFAM e gestores locais consolida uma rede estratégica que reposiciona a enfermagem como protagonista no enfrentamento das desigualdades em saúde.
O que se constrói no Alto Rio Negro não é apenas uma experiência local. É um modelo replicável, capaz de inspirar políticas públicas, programas de formação e estratégias de cuidado em outras regiões do Brasil e do mundo.
Ao integrar ciência, cultura e território, a iniciativa projeta uma enfermagem mais preparada para enfrentar a complexidade dos sistemas de saúde contemporâneos e, sobretudo, mais comprometida com a equidade e a justiça social.
No coração da Amazônia, ganha forma uma nova geração de enfermeiros, ainda em processo de formação avançada, mas já profundamente conectada à ciência, enraizada na cultura e comprometida com a transformação das realidades em que atua.
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