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Segunda-feira, 20 de Abril de 2026

Saúde

Se eu tivesse câncer hoje, me trataria no Brasil – Dr. Antonio Carlos Buzaid

Atualmente, temos muito a ensinar em relação aos cuidados do paciente oncológico

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Se eu tivesse câncer hoje, me trataria no Brasil – Dr. Antonio Carlos Buzaid
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Se eu tivesse câncer hoje, eu me trataria no Brasil – e essa afirmação pode causar estranhamento entre colegas que sabem como os Estados Unidos foram importantes na minha formação como médico.

Mas, depois de mais de uma década atuando em alguns dos principais centros oncológicos do mundo, como MD Anderson Cancer Center, Yale e Universidade do Arizona, e mais de 25 anos acompanhando de perto a evolução da oncologia brasileira, aprendi que a diferença entre os dois países não está onde a maioria imagina.

Relação entre médico e paciente é grande destaque na oncologia brasileira

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O Brasil não perde, necessariamente, na qualidade do tratamento. Perde na capacidade de inovar.

Em centros de excelência, o cuidado oncológico brasileiro é comparável ao padrão ouro internacional. Protocolos são seguidos com rigor, equipes são altamente qualificadas e os desfechos clínicos acompanham o que há de melhor no mundo. A ideia de que o paciente precisa sair do País para receber um bom tratamento, na maior parte dos casos, já não se sustenta.

A verdadeira diferença está no que vem antes – e no que vem depois. Os Estados Unidos concentram a liderança global em pesquisa clínica. São dezenas de bilhões de dólares investidos anualmente em saúde, com protagonismo absoluto nos estudos de fases iniciais, justamente aqueles que definem o futuro da oncologia. Instituições líderes em pesquisa não apenas tratam pacientes – elas direcionam quais serão os próximos tratamentos disponíveis no mundo.

No Brasil, a pesquisa clínica ainda ocupa um espaço que pode crescer muito. O País participa de uma fração pequena dos estudos globais e, na maioria das vezes, em fases mais avançadas, como estudos de fase III. Isso reduz o acesso precoce a terapias inovadoras e limita o protagonismo científico nacional, apesar da relevância epidemiológica e do tamanho da população brasileira.

O financiamento também impõe barreiras importantes. Enquanto os Estados Unidos investem mais de US$ 12 mil por pessoa ao ano em saúde, no Brasil essa cifra gira em torno de US$ 1.500. Essa diferença se traduz em velocidade de incorporação tecnológica, acesso a medicamentos e capacidade de inovação.

Mas há um aspecto em que o Brasil se destaca de forma consistente: a relação entre médico e paciente.

os Estados Unidos, o sistema é altamente eficiente, estruturado e baseado em evidências, mas também mais segmentado. O cuidado é dividido entre múltiplos profissionais, com menos contato contínuo e acolhimento. Funciona bem do ponto de vista técnico, mas nem sempre acompanha a dimensão emocional de quem está do outro lado.

Uma uma diferença de cultura. Se, por um lado, os Estados Unidos lideram a inovação, o Brasil demonstra força na entrega do cuidado próximo. O que falta ao País não é capacidade médica – é estrutura para liderar a próxima geração de tratamentos.

O desafio – e a oportunidade – está em ampliar o protagonismo em pesquisa clínica sem perder a essência do cuidado centrado no paciente.

Depois de quase quatro décadas dedicadas à oncologia, minha conclusão é de que o Brasil já aprendeu a cuidar. Agora, precisa aprender a liderar. E, até lá, sigo convicto de algo que nem sempre é óbvio fora do País: em muitos dos nossos centros de excelência, o paciente encontra não apenas tratamento de alto nível, mas algo cada vez mais raro na medicina moderna, ou seja, o acolhimento.

Opinião por Antonio Carlos Buzaid

Médico oncologista, Diretor Médico Geral do Centro de Oncologia dos Hospitais Nove de Julho e Samaritano Higienópolis, da Rede Américas, e cofundador do Instituto Vencer o Câncer

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