Chega uma idade em que a vida começa a encolher devagarinho. Não de uma vez, não como uma porta que se fecha abruptamente, mas como um corredor que vai ficando mais estreito sem que a gente perceba.
Antes, viver era sair sem rumo, comer sem culpa, dormir sem cálculo, passar um dia inteiro sem pensar no corpo. O corpo simplesmente existia, silencioso, obediente, quase invisível.
Depois ele passa a ocupar tudo.
Primeiro vem um exame. Depois um remédio. Depois uma recomendação. Aí aparece uma taxa alterada, uma restrição, um cuidado permanente. Quando se vê, a vida começa a girar em torno da farmácia e do supermercado. Um corredor de cápsulas de um lado, outro de produtos diet, light, sem sal, sem açúcar, sem gosto, sem graça.
E a pessoa vai sendo conduzida como quem administra uma empresa em crise: controlando números, reduzindo danos, evitando riscos.
O mais estranho é que, muitas vezes, nesse esforço enorme para preservar a vida, a própria vida vai escapando pelos cantos.
Olho para minha mãe, com seus noventa e um anos, e penso noutra lógica de existência. Comeu a comida simples de sempre, viveu sem essa vigilância obsessiva sobre cada órgão do corpo, sobre cada índice do sangue, sobre cada ameaça invisível anunciada pela medicina contemporânea.
Vivemos monitorados. O colesterol vigia o café da manhã. A glicemia observa o almoço. O fígado participa do jantar. E a velhice, às vezes, vai transformando o ser humano num paciente em tempo integral.
Talvez envelhecer seja justamente essa luta silenciosa para não deixar que a existência se reduza a isso. Para continuar vendo beleza numa tarde comum, ouvindo uma conversa sem pressa, sentindo o vento na janela, rindo de alguma lembrança antiga.
Porque chega um momento em que viver bem talvez não seja vencer o tempo, mas impedir que a vida aconteça apenas entre o supermercado e a farmácia.
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