Durante a formidável catarse escatológica que Emerson Ceará nos proporcionou na noite de ontem (16.03) lá no teatrão massa do arrabalde-mor, entre os graciosos esculachos e refinadas baixarias que fizeram jorrar o gozo de riso da galera, o irresistível ex-garçom (olhaê a fila pra fotinha pós-show...) surpreendeu os distraídos.
Saiu-se com uma tirada megairada. Lá pelas tantas, zoando uma velhinha narfa total sobre Internet, no caso a própria mãe, lascou essa fala, como se dela fosse: ´
- Mas que indiota essa minha irmã. Me respondeu com ´kkkkk´. Diabéisso?
- Ôxi, quer dizer que ela achou engraçado, ´kkkkk´
- Ahn... e por quê não escreve ´está rindo´, só?
Plateia veio abaixo. Primor de domínio da linguagem cênica. Truque de coxia manjado há décadas, talvez desde Zeloni, Oscarito e Vic Millitelo. E que assim, lido, fica ainda mais cômico, não? Vdd. Dmr. Tmj. Mnc.

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Perspectivas não existem à toa, ignorá-las é fazer jogo sujo consigo mesmo. Tudo muda de figura conforme o ponto de vista escolhido. Por especial favor da Criação, as circunstâncias perante as quais delibera-se qual deles será aceito ou rejeitado, essas, infelizmente, não estão submetidas ao jugo de nosso alvitre.
Daí o espanto a nos assaltar quando algo não sai como se era de esperar. Vem da desatenção com o sutil poder da perspectiva o desandar de tantas maioneses. Puxadas de tapete antológicas, e o trovejar dos fiascos que as acompanham em coro, nascem da negligência em admitir nosso minúsculo poder de mando sobre as circunstâncias. Não posso, portanto, me furtar a admitir: é a tudo isso junto que se deve o gostinho bom de escrever coluna de domingo. Rapaziada ainda estamos quase todo mundo com sono, isso aqui é só um empurrãozinho amigo de volta ao berço. E que venha logo a terça, porque segunda já era.
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Meu pai sempre lavava as mãos cuidadosamente. Dos punhos às unhas, sem pressa, mas com o esmero manso, de cavalheiro de nascença, que só hoje, quatro anos depois, compreendo ter sido um traço nítido do seu caráter gentil.
Entre todas, a pessoa menos distinta do meu existir, de quem a distância, aliada ao tempo, conecta na memória a despedida Dele, "tudo está consumado". De outra perspectiva, essa melancolia incontida não passa de ilação e devaneio, não sustenta um ponto de vista, exceto sob uma especial circunstância, ao alcance de nosso alvitre...
O fato é que, seja de sob quais torneiras as águas do mundo desçam por sobre meus dedos, antebraços abaixo, tentar emular seu gesto tão simples me serve a fazer minha vida mais limpa, como nada mais que um dia soube ou vi.
TEXTO E FOTOS - CARLOS MACENA
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