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Sexta-feira, 01 de Maio de 2026

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CORONARIANDO – Crônica de Carlos Macena

Carlos Pedro Macena, o “repórter que não morreu” estréia sessão de crônicas no Hoje Amazônia

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CORONARIANDO – Crônica de Carlos Macena
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Corre não, coração

Estou estando estado na indizível iminência de perder, em campo, numa dessas semifinais que nos socam goela abaixo, na base do tapetão, numa trapaça, um coração coronário ao meu. Está fora do lugar o meu coração uterino, porque o meu coronário tem perdido seu lugar no time, ainda que o outro o ache, o chame, o acalante em penumbra de sol, luar de meiodia, pingo de vento, água falante, ouvinte nuvem.

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“Parece poder ser, sim, que seja só nada”, sussurrava meu coração dias atrás, levando seus merecidos tabefes, sobre o meu coronário. Dias atrás, foi assim que meu coração, exausto, tentou explicar-me, às cinco de uma dessas manhãs, qualquer dessas últimas, que nunca mais começaram. Hoje, quando berro-lhe por notícias do meu coronário, meu coração me olha na alma e se cala. O grito é cavo e surdo o urro, por isso, à moda do Pai, o perdoo: como eu, de nada sabe. Ele é só um coração. Anda comigo, mas não pode lutar por notícias e erguer em muro esperanças de pedra. Grava, arquiva o que lhe despejam meus olhos e lhe trazem minhas mãos, cede seu lugar à mesa, avisa quando vou bater o carro e ainda vela quando apago, mas seu serviço, esse meu coração não larga nunca.

Meu coração coronário nunca soube de nada disso. Chegou, olhou, desconfiou, se mandou, atendeu sua voz, pegou e veio. Sentou e riu, conversou e teimou, duvidou mas arriscou, trouxe às manhãs sóis frescos, trocou uma ideia com o titular da vaga, levou-o pra grupo, meu coração alegremente caiu na dele, e o que faltava de vida no sangue, de ar na alma, de riso na noite, de briga besta, de fitinha, dengo e magma, os dois combinaram.

Até que vinham bem, o ex-titular conformado com o banco, o craque coronariano já arrastando asa, de olho no charme das mitrais, escutando conversinhas subclávias, até o velho miocárdio original dar um cascudo no forame oval e lhe chamar na chincha: “Filhão, nossa área é aqui, no core da usina, no alto-forno, dia e noite no bate-estaca, tu não tens nada que te esparramares assim, és muito mais que achas, esquece o que pensam. Não vou repetir”.

Meu coração coronário gostou, sentiu firmeza, deu moral, se ligou no vacilo - mas fingiu que não. Voltaram às boas, os dois. Pericárdio irrigado, vascularização no doze, P. J. Harvey deveria nos ter conhecido. Quando dois corações se aliam, começam a ficar amigos, ruindade pouca resiste; desconfiança, desaforo, descaramento, destempero, desilusão... Por isso, quando o titular e o coronário saem pra tomar umas Heineken, e não chamam a gente, a gente sabe que pode dormir tranquilo. Quem sabe como isso acontece não precisa concordar.

E agora, a iminência de meu coração coronário nos deixar. Sofreu golpe brutal do destino, caiu numa trapaça da sorte? Seria indigno reduzir a apenas uma a razão de ele ter, num repente, ficado tão fraquinho e baço. Se assim fosse, meu coração não me arrancaria da cama toda manhã, aceso, cheio de ideias, planos, notícias, pesquisas, telefonemas. Meu coração sabe que meu coronário não foi vítima de algo que escapou ao controle de quem quer que seja, só, por favor, não o nomeiem o Criador e assemelhados os que nisso creem. Não, meu coração tem absoluta certeza, e a mim generosamente convenceu, que nosso coração coronário pode até estar na iminência de parar, mas qual não estamos?

Estou pensando nos corações de quem tem seus coronários. Devaneio sobre os que, esta noite, amanhã, ou antes de nunca mais, ou depois de seja lá o que for, andam sabiamente se preparando. E o fazem lúcidos, serenos, na calada do dia, enquanto finjo fazer as coisas importantes com as pessoas cujas vidas e atos são importantes, e provavelmente assim o continuarão. Acordo, parto, piloto, ouço, ajo, reajo, manobro, engano, paquero, enrolo, pago, minto, piso, tropeço, fumo, soluço, caminho, vago, respondo, desrio, como, bebo, ensaio em silêncio como e o quê meus olhos, facies, gestos farão comigo, à undécima hora. Improviso falas, repito-as à exaustão, como se servissem para todo desfecho, palavra mais descabida impossível. Meu coração emula os próximos anos, enquanto se vão todos os minutos.

No intervalo do jogo, meu coração coronário devolveu a camisa ao titular, por ordem de nem sei qual técnico. Meu coronário agora está no banco, cabisbaixo mas desperto, mudo, insone mas valente, enquanto meu coração, a um passo da taquicardia supraventricular paroxística, vagueia num campo sem bola. No placar, não se consegue ler se o segundo tempo será ou não o último.

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