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Quinta, 28 de outubro de 2021
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Arte e cultura

Imortais só nas redes sociais

Agora mesmo resolvi checar meus contatos no whats e achei pelo menos vinte amigos falecidos nos últimos meses.

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          O “esqueci”, junto com o famigerado “não lembro” – que é tudo a mesma coisa - não nos salvam mais em nenhuma situação. Além de não salvar, ainda causam constrangimento, já que as redes sociais, principalmente o facebook, uma coisa que é tão útil quanto geradora de discórdia, está todo dia nos lembrando do que fizemos no verão passado. E no inverno, no outono e primavera também.

          Aquela festa cinco anos atrás, quando você encheu a cara, disse que o noivo era corno, beijou a tia solteira da noiva, mijou na pia e pra fechar a noite vomitou no Buffet de sobremesa é uma coisa que gostaria muito, mas muito mesmo, de esquecer. Mas todo ano vem o face lembrando, mostrando fotos, o cacete a quatro. Fazer uma lobotomia não vai resolver, trocar de conta também não, porque nesse caso o “facecão dos infas” talvez não te ache, mas vai lembrar todos os amigos que curtiram ou comentaram a presepada.

          E a quantidade de redes sociais que existe? Tem aplicativo de tudo que é jeito, de modo que namorada (o) ciumento vive a beira do colapso. Não adianta vigiar whats (esse um cramulhão enlouquecedor) porque a pessoa pode usar qualquer um das centenas de aplicativos existentes na rede. Talvez se o sujeito se aventurar na “dark web” encontre um hacker de responsa...mas essa já é outra história.

          O negócio aqui trata das lembranças que o tal facebook joga na tua cara todo dia. Agora mesmo resolvi checar meus contatos no whats e achei pelo menos vinte amigos falecidos nos últimos meses. E olha que não tenho nem 500 contatos – acho que falo com 30, se muito.

          Decidi não vasculhar os mais de três mil contatos no facebook. Arrisca achar uma enormidade de gente que já desencarnou e, ainda que não fossem amigos, eram pessoas que eu conhecia, algum motivo especial existe para estarem lá.

          Essas lembranças do que a gente fez no verão passado são cabulosas. Recentemente apareceu uma lista com mais de dez aniversariantes do dia. Enviei mensagem automática para todos, sem atentar que entre eles estava uma querida sobrinha, falecida anos atrás. Uns e outros da família disseram que eu estava de zombaria - “falta de respeito, seu aloprado.” Fui obrigado a responder no mesmo tom: “Está morta pra vocês, que são desprovidos de sentimentos”. “Pra mim, no meu coração, continua lépida e faceira.” Na hora ajeitou as coisas, mas agora acho que vai piorar.

          Nos tempos atuais você não mais o “direito” de esquecer nada, principalmente aniversários. Mais imagina que você esteja desconectado, “dezonline”, justamente no dia do aniversário da cara metade e, de fato, esqueceu?

          Fica ruim, não fica? O recurso é dizer que não esqueceu não, que estava fingindo porque tinha preparado uma surpresa para o fim de semana. Então, explode com o cartão de crédito, adianta o 13º, faz um consignado e prepara um grande evento. Ou se prepare para o divórcio litigioso.

          Hoje o facebook me lembra de coisas ocorridas nos últimos oito anos. Nada de memorável, nenhum vexame. Mas gostei porque consegui resgatar um texto que julgava perdido para sempre. Isso não redime esse cramulhão facebook. Continua sendo uma inteligência artificial que tem dupla personalidade. Agora me deixa feliz por reencontrar Horácio do Bode, que lhes apresento em anexo,  e mais tarde pode me causar muita, mas muita raiva.

          Decididamente, não vou vasculhar minha lista de contatos. Deixa. Nas redes sociais, meus amigos são imortais. Como Horácio do Bode...

 

         

 

Canto de mundo desarranjado é a tal praia

Horácio do Bode é um sujeito correto. Tranquilo feito agua de poço, que só encrespa se alguém joga pedra, “seo” Horácio não gosta de discussão, jura que nunca deu e nem tomou um cascudo sequer na vida. Garante que é, no fim, um sujeito até medroso.

“ – Se eu cismo que um cabra tá querendo me surrar mando matar. E nem é de malvadeza, é de medo mesmo,” alerta “seo” Horácio.

 Vivendo de uma pequena criação de cabritos, o nordestino tem mais de oitenta anos e opiniões estranhas sobre muitas coisas:

 Semana passada vendeu um cabrito e o cliente comentou que estava saindo de férias, passaria uma temporada na praia. Horácio do Bode disse que nunca entendeu como alguém pode gostar de praia. No entendimento dele, lugar pior não existe;

“ – Canto de mundo desarranjado é a tal praia. É só areia quente sapecando os pés, beirando um açude pai d’égua de grande que não presta prá nada porque a água é salgada. O sol é excomungado de quente, assa o couro da gente, que dai vai largando igual pele de cobra. Se o cabra fica com a moleira debaixo desse sol umas horas adoece, tem que ficar bebendo chope, água de coco. É, porque periga a água que tem dentro da gente secar.  É a tal de desidratação, sabe?

 O camarada olhava pro “seo” Horácio e construía imagens na mente. A narração prosseguia;

“- E de comer, seu moço? Na tal praia sei não se tem buchada de bode. Tem é uns bichos esquisitos, nojentos. O sujeito acha é camarão, siri, caranguejo com as mãozinhas de alicate, a meleca da tal de ostra...Padim Ciço que me livre dessa má sorte. Ah, tem também a lesma, que o povo lá chama de “iscagô.”

 Cabrito ajeitado no porta malas do carro, o homem se despedia do “seo” Horácio, que pediu mais um minutinho;

“ – Meu filho, praia é coisa do capeta, começando pela quentura. E a gente de lá? A mulherada anda pode dizer pelada, só de calcinha e sutiã. E tem umas que nem sutiã tem. Os cabras pra lá e cá só de cueca bem apertada, que é pro bilau ficar embolado.  Óia se isso é coisa de cristão, seo menino?

Da série HORACIO DO BODE, que faz parte do livro de contos, ainda inédito, CONTOS NOTURNOS, de Benê Barbosa

 

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