O absurdo da vida não aparece em grandes catástrofes. Ele não precisa de terremotos nem de tragédias históricas. Às vezes, ele se revela numa tarde comum, quando a gente percebe que está vivendo algo bonito e sabe que vai acabar.
É estranho.
A gente cresce ouvindo que tudo tem um propósito. Que o sofrimento ensina. Que o amor salva. Que o tempo cura. E passa a vida tentando encaixar as coisas nessa narrativa organizada, como se o mundo fosse um livro já escrito, com começo, meio e redenção no final.
Mas o mundo não explica nada.
A gente pergunta: “Por quê?”
E o universo responde com vento.
O absurdo nasce aí. Não no caos, mas na expectativa. Não na dor, mas na nossa exigência de que ela faça sentido. Queremos que o amor dure. Queremos que a justiça vença. Queremos que as pessoas boas fiquem. Queremos que o que é nosso não nos seja arrancado.
Mas a vida é provisória.
A primeira vez que a criança descobre que alguém morre, há uma rachadura. A primeira vez que o adulto perde alguém que ama, a rachadura vira abismo. E nenhum discurso fecha completamente essa fenda.
A verdade é que não suportamos a ideia de que as coisas simplesmente aconteçam. Precisamos acreditar que há um desenho maior, um equilíbrio secreto, uma compensação futura. Talvez exista. Talvez não. O fato é que, aqui, no concreto do dia a dia, não recebemos garantias.
E mesmo assim, acordamos.
Amamos de novo. Planejamos. Plantamos árvores que talvez não veremos crescer. Fazemos promessas sabendo que o tempo é instável. Criamos filhos para um mundo que não controlamos. Escrevemos livros que talvez ninguém leia daqui a cinquenta anos.
Isso não é ingenuidade.
Isso é coragem.
Talvez o absurdo da vida não esteja no silêncio do universo, mas na nossa insistência em continuar falando com ele. Continuamos perguntando. Continuamos criando. Continuamos amando, mesmo sabendo que tudo é transitório.
Há algo de profundamente digno nisso.
Porque viver sem garantias e, ainda assim, escolher o afeto, a responsabilidade e a esperança é um ato de rebeldia silenciosa. Não contra Deus, nem contra o cosmos. Mas contra a indiferença.
O universo pode não responder.
Mas nós respondemos quando seguramos uma mão.
Respondemos quando ficamos.
Respondemos quando, apesar de tudo, escolhemos não endurecer.
Talvez o absurdo não seja uma condenação.
Talvez seja apenas o nome adulto da lucidez.
E, no fim, viver seja exatamente isso: permanecer nessa tensão entre o que desejamos que o mundo seja e aquilo que ele realmente é, sem perder a capacidade de amar no meio do caminho.
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