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Quinta-feira, 07 de Maio de 2026

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Pedágios inflamam pré-campanha em Rondônia, Fúria ironiza Marcos Rogério e caso Robson José reacende debate sobre racismo estrutural no Judiciário

RESENHA POLÍTICA – ROBSON OLIVEIRA

Hoje Amazônia
Por Hoje Amazônia
Pedágios inflamam pré-campanha em Rondônia, Fúria ironiza Marcos Rogério e caso Robson José reacende debate sobre racismo estrutural no Judiciário
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Coluna aborda desgaste político provocado pelos pedágios da BR-364, embates antecipados entre pré-candidatos ao governo e repercussões da não vitaliciedade do ex-juiz Robson José Santos no debate sobre seletividade institucional e racismo estrutural.

TOM

A pré-campanha ao governo de Rondônia começou quente e já revela o tom agressivo que deverá marcar a disputa de 2026 entre Adailton Fúria e Marcos Rogério. Antes mesmo do período eleitoral, os primeiros movimentos mostram que o debate deverá girar menos em torno de propostas e mais sobre desgaste político acumulado. E, neste aspecto, o pedágio da BR-364 transformou-se no principal flanco da bancada federal rondoniense.

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EFEITO

Com habilidade de comunicação e senso de oportunidade, Fúria encontrou uma forma simples, bem-humorada e extremamente simbólica de atingir o adversário: a pequena motocicleta utilizada em suas aparições públicas. A miniatura, aparentemente ingênua, carrega uma crítica política poderosa ao associar o senador ao tema mais explosivo do estado atualmente - as tarifas consideradas abusivas da concessão da BR-364. A estratégia tem potencial para virar a vedete da campanha justamente pela sutileza. Em política, quando o humor encontra um sentimento coletivo de indignação, o efeito costuma ser devastador.  Embora Marcos Rogério tenha procurado conter os eventuais danos e feito uma pressão forte junto a ANTT para mitigar as tarifas.

INÉRCIA

O problema para a bancada federal é que o desgaste não nasceu agora. O debate sobre a concessão da BR-364 tramitou durante anos em Brasília. Audiências públicas, estudos técnicos, modelagens econômicas e discussões regulatórias ocorreram sem que os representantes de Rondônia percebessem que o tema se transformaria em uma bomba eleitoral de alto poder destrutivo. A classe política local simplesmente assistiu inerte ao processo caminhar dentro da burocracia federal sem mobilização proporcional à gravidade do assunto.

PREJUÍZO

E o mais grave: havia instrumentos legislativos e políticos capazes de tensionar a discussão antes da implantação definitiva do modelo. A bancada poderia ter acompanhado mais de perto a modulação tarifária, cobrado mudanças, pressionado ministérios, provocado debates nacionais e alertado a população sobre os impactos futuros da concessão. Mas prevaleceu o silêncio conveniente. Agora, depois da reação negativa do eleitorado, tenta-se correr atrás do prejuízo. O problema é que o evento virou uma espécie de palanque contra o governo e sabe que em Rondônia a rejeição é alta.

MITIGAR

A tentativa de trazer a Agência Nacional de Transportes Terrestres para debater tarifas já implantadas soa muito mais como ação para mitigar desgaste político do que propriamente solução concreta. Questionar o formato da concessão depois das praças em funcionamento é discutir a porta arrombada após o assalto consumado. Os defeitos do contrato não surgiram da noite para o dia. Apenas não foram percebidos - ou ignorados - enquanto o tema ainda parecia distante da realidade do eleitor.

DESCONEXÃO

A verdade inconveniente é que a bancada federal levou uma monumental “bola nas costas”. E isso talvez explique o nervosismo antecipado da pré-campanha. Porque o pedágio deixou de ser apenas um debate técnico sobre infraestrutura. Tornou-se símbolo da desconexão entre Brasília e a realidade de um estado que depende da BR-364 para praticamente tudo: transporte de alimentos, combustível, produção agrícola e circulação de pessoas.

INDIFERENÇA

Outro nome forte nesse cenário é o ex-prefeito da capital Hildon Chaves. Nos último- dias, adversários passaram a criticá-lo por ter viajado a Miami para visitar o neto, acusando-o de “abandonar” a pré-campanha. A crítica, entretanto, parece mais ansiedade política do que análise concreta do cenário. Até o momento, não há números pesquisados que indiquem qualquer prejuízo eleitoral pela ausência temporária de Hildon em Rondônia. A eleição de fato começa após as convenções. A pré-eleição  é algo novo e as pesquisas revelam que o grosso do eleitor não está nem ai ainda para as eleições.

AGOSTO

Até porque a campanha propriamente dita ainda está distante. Fora do calendário oficial, o que existe hoje é uma sucessão de manchetes, vídeos, recortes para redes sociais  disputas narrativas que pouco ou nada interferem efetivamente na decisão do eleitor. A eleição começa mesmo quando o cidadão passa a comparar propostas, alianças e capacidade administrativa - algo que só ganha corpo mais próximo de agosto do próximo ano.

LINGUIÇA

Até lá, salvo uma gafe absurda que destrua a honorabilidade de algum pré-candidato ou um comportamento frontalmente ofensivo ao povo rondoniense, o restante é apenas barulho político. Ou, como diria o velho linguajar popular, muita linguiça sendo enchida. Deve estar sobrando grana porque equipes estão sendo arregimentadas.

ESQUERDA

Pelo campo da esquerda, Expedito Netto reaparece como nome ligado ao Partido dos Trabalhadores e parece satisfeito apenas por voltar à ribalta política após dois mandatos parlamentares e uma derrota à Câmara Federal quando orbitava a direita. Expedito mantém um discurso ideológico firme, por vezes raivoso, bastante alinhado ao petismo mais radicalizado. Tem conseguido espaço no debate público justamente por vocalizar pautas que outros setores evitam enfrentar. Samuel Costa continua com a estratégia de sempre: atira para todos os lados e continua falando sozinho.

LIMITE

O problema é que existe um limite natural para a penetração eleitoral desse discurso em um estado historicamente conservador e majoritariamente antipetista como Rondônia. Ainda assim, sua presença na disputa tende a influenciar o ambiente político, especialmente no embate ideológico e na fragmentação narrativa entre direita, centro e esquerda.

CANCELAS

Enquanto isso, a população observa. E cada vez mais irritada com uma classe política que parece ter descoberto tarde demais que o maior cabo eleitoral negativo de 2026 talvez não seja um adversário, mas as cancelas instaladas ao longo da BR-364.

COLUNA

A repercussão da última coluna que abordou a não vitaliciedade do juiz Robson José Santos revelou uma inquietação que vai muito além do destino funcional de um magistrado. Trouxe à tona um debate desconfortável sobre o sistema penal brasileiro, o perfil conservador da magistratura e, sobretudo, os contornos do racismo estrutural ainda impregnado nas instituições.

IMPUTAÇÃO

O jurista Luigi Ferrajoli ensina que “o grau de civilização de uma sociedade se mede pelas condições de suas prisões”. Já Eugenio Raúl Zaffaroni sustenta que o sistema penal latino-americano opera seletivamente contra pobres e negros, convertendo o cárcere em depósito humano.

SISTEMA

 A leitura dos autos permite enxergar exatamente essa tensão: de um lado, uma cultura judicial que ainda vê a prisão como masmorra de castigo; de outro, um magistrado que aparentemente decidiu tratar presos como seres humanos.

ACHISMO

Chamou atenção um depoimento de uma jovem de São Francisco do Guaporé. Ao ser questionada sobre eventual ligação do magistrado com facções, afirmou que “algumas pessoas de São Francisco do Guaporé achavam” que ele teria sido preparado por organizações criminosas desde a universidade para servir às facções. Veja-se o peso da construção social contida no verbo achar. Não havia prova de favorecimento ilícito, sentença suspeita ou atuação judicial em benefício do crime organizado.

RACISMO

Havia, sim, a imagem de um juiz negro, sem os modos aristocráticos da magistratura medieval, circulando em presídios e tratando presos com humanidade. Em uma sociedade profundamente conservadora, isso bastou para produzir suspeição.

PARADIGMAS

O filósofo Michel Foucault já advertia que o sistema penal moderno não busca apenas punir crimes, mas disciplinar comportamentos e controlar corpos considerados desviantes. Talvez por isso a quebra de paradigmas cause tamanho desconforto. O problema não é apenas o que o magistrado fazia, mas quem fazia. Não é usual ver igual rigor disciplinar contra magistrados alinhados ao padrão tradicional de poder.

AFRONTA

Outro episódio emblemático foi a interpretação dada a uma frase de humor dita pelo juiz após esquecer o pregão de audiência: “vamos fazer porque o oficial puxou a orelha do juiz”. Embora o próprio oficial não tenha se sentido ofendido, houve quem enxergasse quebra de hierarquia. Um ambiente excessivamente formalista costuma confundir leveza com afronta e humanidade com fraqueza institucional.

FIADOR

Também chama atenção o fato de todas as subseções regionais da Ordem dos Advogados do Brasil consultadas atestarem que o magistrado sempre manteve relação respeitosa com a advocacia e jamais protagonizou abusos de prerrogativas - algo infelizmente comum no Judiciário brasileiro. Em Rondônia há inúmeros desagravos públicos contra juízes. Nenhum envolvendo Robson José Santos.

SUBJETIVIDADE

Não se afirma aqui que magistrados estejam acima da fiscalização disciplinar. Mas é inevitável questionar se a sanção extrema aplicada não carregou elementos subjetivos incompatíveis com a temperança que o Direito exige. Como advertia Francesco Carnelutti, “o juiz é mais homem do que juiz”. E talvez tenha sido justamente o excesso de humanidade daquele magistrado que parte do sistema não conseguiu tolerar.

NÃOS

É verdade que algumas condutas imputadas ao ex-magistrado merecessem, sim, reprimenda. Não se fecha os olhos para essa premissa. O problema surge quando a sanção excessiva, sob uma perspectiva humanista, parece carregar em sua raiz aspectos que podem - e devem - ser questionados, sobretudo quando o conjunto da obra investigada recai sobre alguém oriundo do “andar de baixo”, que desde cedo aprendeu a conviver com os sucessivos “nãos” impostos por uma sociedade estruturalmente preconceituosa.

INTERNO

O não à vitaliciedade é uma questão interna corporis do Tribunal de Justiça de Rondônia. Entretanto, os fatos que fundamentaram a decisão exigem debate mais profundo sobre racismo estrutural, seletividade institucional e os limites entre disciplina funcional e intolerância à quebra de paradigmas.

REFLEXÃO

O Tribunal pode - e deve - exigir rigor ético e equilíbrio de seus membros. Não é disso que se trata esta reflexão. O ponto central é outro: até que ponto a estrutura judicial brasileira está preparada para conviver com magistrados que desafiem o modelo tradicional, aristocrático e distante que historicamente moldou o Poder Judiciário?

 CEGA

Porque, no fundo, talvez o desconforto maior não tenha sido o comportamento do juiz, mas a figura de um magistrado negro, sem a liturgia fria da magistratura medieval, tratando presos como seres humanos e recusando-se a enxergar o cárcere apenas como espaço de vingança social. Lerei as mais e de duas mil páginas e assistirei todos os vídeos, inclusive da votação.

VOZ

Nosso podcast Resenha Política gravou uma entrevista exclusiva com o ex-juiz Robson José Santos sobre os fatos que culminaram em sua não vitaliciedade. A íntegra será exibida na próxima semana.

CONVITE

Dois candidatos a governador e três ao Senado convidaram este cabeça chata para trabalhar em suas campanhas. Nosso projeto continua sendo o podcast e fica complicado manter um veículo quem tem se sobressaído pelo seu profissionalismo e isenção jornalística aceitando ligação com algum candidato. Embora o não ainda não tenha sido dada como respeitosa resposta aos interlocutores das campanhas, é quase que natural uma resposta declinando aos convites.

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