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Sexta-feira, 08 de Maio de 2026

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ROTEIRO DE CINEMA-Saiba como era a vida do 'matador de aluguel' sérvio executado no litoral de SP

O matador de aluguel eliminou um dos maiores maiores mafiosos de Montenegro e fugiu para o Brasil

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Por Hoje Amazônia
ROTEIRO DE CINEMA-Saiba como era a vida do 'matador de aluguel' sérvio executado no litoral de SP
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Darko Geisler chegou ao Brasil em 2015 e dois anos mais tarde foi morar na praia, em São Vicente. Deko, como era conhecido pelos amigos, gostava de cozinhar e receber visitas em casa. O sérvio foi morto em 5 de janeiro, ao chegar em casa com o filho e a esposa.

Numa cafeteria, no Boqueirão, a meia quadra da praia, em Santos, no litoral de São Paulo, todo mundo conhece o Deko. E as opiniões são unânimes: um cara gente boa.

“Ele fez uma festa de aniversário pra mim no ano passado, na casa dele. Levei até minha filha”, relembra uma senhora, enquanto toma um suco de abacaxi, numa das mesas postas no calçadão da Conselheiro Nébias.

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Deko é o apelido que o sérvio Darko Geisler ganhou de um advogado que frequenta há anos a mesma cafeteria. Os dois se conheceram e ficaram amigos nas mesinhas da calçada, entre um café e outro.

“Eu já tinha visto ele outras vezes aqui, era caladão, com pinta de gringo. Um dia, resolvi puxar conversa”, conta o advogado. “Perguntei pra ele: Do you speak english? E ele me respondeu, com um sotaque carregado: Não, eu falo português mesmo”.

O sérvio Darko Geisler se apresentou em Santos como um esloveno chamado Dejan Kovac. Ensinou os amigos a pronunciar o nome: Deian Kovéchi. Logo, na cafeteria, Dejan virou Deko.

 “Ele tava sempre aqui, às vezes com o filho, às vezes sozinho”, conta o advogado, até ser interrompido pela mulher do suco de abacaxi. “Eu fiquei muito decepcionada com ele, não gostei de ser enganada esse tempo todo. Vamos mudar de assunto”.

Darko foi morto a tiros, na noite do último dia 5, em Santos, quando chegava em casa, de bicicleta, com a esposa e o filho de 3 anos. O atirador fugiu e ainda não foi identificado. A polícia suspeita que a motivação do crime seja vingança.

Origem de Darko

Darko Geisler nasceu em 14 de junho de 1980, em Pancevo, cidade com pouco mais de 70 mil habitantes, na região central da Sérvia. Não se sabe ao certo como e quando ele se envolveu com os clãs, como são chamadas as organizações criminosas no leste europeu.

O fato é que, em 2014, aos 34 anos, Darko já era conhecido como um experiente matador de aluguel. Por isso, em dezembro daquele ano, foi contratado para assassinar um mafioso em Montenegro, país que faz fronteira com a Sérvia. Ele cumpriu a missão dias depois, na manhã fria de Natal.

Darko estava sentado no banco de um ponto de ônibus, quase em frente ao portão da uma penitenciária, na cidade de Spuz. O alvo chegou com a esposa, num carro blindado. Ia visitar o irmão na cadeia. Mas não deu tempo. Darko se aproximou e, assim que a vítima desembarcou, atirou várias vezes.

O matador correu em direção a um motoqueiro e, ao subir na garupa, a arma disparou acidentalmente, ferindo sua perna. Mesmo assim, a dupla fugiu e nunca mais foi vista.

Dias depois, no começo de 2015, Darko chegou ao Brasil, já com um passaporte esloveno falso, em nome de Dejan Kovac. Não há registro de entrada no país com nenhum dos nomes. Ou seja: ele, provavelmente, entrou em território brasileiro por uma fronteira terrestre.

Investigadores europeus acreditam que o mandante do assassinato financiou não só a fuga pro Brasil, mas também a vida clandestina do assassino por aqui.

Um dos primeiros lugares que Darko morou foi em São Paulo, no oitavo andar de um confortável flat, na esquina da Haddock Lobo com a Alameda Jaú, nos Jardins, bairro nobre da capital.

Em setembro de 2016, mudou para um apartamento duplex, na Rua Tuim, em Moema. Pagava 4.900 reais por mês de aluguel. No contrato de locação, o falso esloveno informou sua profissão: economista.

Foi nessa época que Darko conheceu a futura esposa, numa balada, na capital. Segundo amigos, os dois se apaixonaram e passaram a viver juntos.

Numa viagem que fizeram à Baixada Santista, decidiram que queriam morar perto do mar. Em 2017, alugaram um apartamento a uma quadra da Praia dos Milionários, em São Vicente. Darko, novamente usando nome falso, pagou 12.600 reais à vista, por seis meses de aluguel.

Em 2018, o casal mudou pra um apartamento no Boqueirão, em Santos, a meia quadra da praia. No contrato, Darko informa uma profissão diferente: moveleiro.

Amigos contam que o sérvio tinha habilidades manuais com madeiras. Ele não só consertava e restaurava móveis, como também erguia telhados. Era assim, fazendo bicos de carpinteiro, que ele ganhava algum dinheiro.

Em 2019, Darko descobriu que a esposa estava grávida. O casal, então, decidiu que era hora de ter uma casa própria. Eles escolheram mudar para a tranquila Rua São José, no bairro vizinho do Embaré.

O apartamento custou 250 mil reais e foi registrado apenas no nome da esposa. Mas, segundo pessoas próximas ao casal, foi Darko quem pagou: à vista e em dinheiro vivo.

O imóvel, no terceiro andar e com 161 metros quadrados, precisava de reformas. O próprio Darko tocou parte da obra, em especial a construção e instalação dos armários.

Momento da execução: sérvio estava com o filho na cadeirinha da bicicleta quando foi baleado seis vezes

Nascimento do filho

O filho nasceu em 2020, durante a pandemia da Covid-19. A criança foi registrada apenas com o nome da mãe. Darko, que já tinha fama de ser bom amigo e bom marido, se tornou também um bom pai, apesar de não ter colocado seu nome na certidão de nascimento do filho. Recentemente, era visto levando e buscando a criança na escola.

O advogado e amigo da cafeteria do Boqueirão foi convidado pra ser padrinho. E aceitou. “Eu tenho um amor muito grande pelo menino, como um filho, e pelo Darko também. É um amor de amigo, sabe?”.

Nove anos depois de fugir do leste europeu, Darko parecia tranquilo e feliz com a vida construída cladestinamente no Brasil. Amigos relatam que ele adorava cozinhar e receber visitas em casa. Segundo vizinhos, era sempre muito educado nas ruas do bairro. E querido por todos que o conheciam.

Crime em Montenegro: investigação avança

Mas enquanto Darko fazia amigos e formava família no Brasil, a polícia de Montenegro avançava na investigação do assassinato de 2014. Nove meses depois do crime, autoridades europeias anunciaram a descoberta do autor dos disparos contra o mafioso.

Os investigadores chegaram ao nome de Darko graças ao ferimento que ele sofreu na perna, durante a fuga. Peritos coletaram o sangue que ficou na cena do crime e fizeram a comparação de DNA. No entanto, Darko era dado como desaparecido e havia até uma suspeita de que ele estivesse morto.

Mesmo assim, o nome de Darko foi inserido na difusão vermelha da Interpol, a lista dos criminosos mais procurados do mundo. Se fosse encontrado, ele poderia ser preso em qualquer país.

O assassinato do mafioso na porta da cadeia teve ampla repercussão na imprensa do leste europeu. De tempos em tempos, sites e jornais de Montenegro faziam reportagens cobrando o esclarecimento do caso.

Documentário foi o fim da linha?

Em novembro do ano passado, uma emissora de TV montenegrina levou ao ar um documentário, que relembrava o crime de 2014. E trazia novidades. Uma testemunha afirmou que Darko não só estava vivo, como estaria vivendo escondido no Brasil.

Há quem acredite que, com a divulgação dessa informação, os clãs do leste europeu se movimentaram para encontrar Darko e vingar a morte do mafioso. A tese da polícia é que um matador foi enviado ao Brasil pra cumprir a missão.

Execução de Darko, os passos do criminoso

Na noite do dia 5 de janeiro, Darko foi com a esposa e o filho à praça que fica em frente ao Sesc, no bairro da Aparecida, em Santos. É costume na cidade que famílias e crianças se reúnam no local aos finais de semana para relaxar e se divertir.

Imagens de câmeras de monitoramento instaladas na praça e coletadas pela polícia mostram que um homem, sozinho, sentado num banco, observava Darko à distância.

Quando o sérvio e a família começam a se organizar para ir embora, o homem levanta e inicia uma caminhada. Darko está de bicicleta, com o filho na cadeirinha, atrás dele. A esposa segue em outra bicicleta. O casal vai pedalando tranquilamente, e o assassino, andando apressado.

A polícia tem certeza de que o homem já estava monitorando Darko há alguns dias, pois sabia sua rotina e até o caminho que o sérvio fazia da praça do Sesc pra casa.

No meio do trajeto, o casal de bicicleta ultrapassa o homem, que aperta o passo. Ao se aproximar do prédio que Darko escolheu pra morar, as câmeras mostram que o assassino começa a correr. Coloca algo pra cobrir parcialmente o rosto.

Quando se preparava pra abrir o portão do edifício, Darko foi surpreendido pelas costas. O homem disparou pelo menos seis vezes, à queima-roupa. Darko cai da bicicleta, junto com o filo, que não é atingido pelos tiros. A esposa, logo atrás, também sai ilesa.

O homem foge a pé pela Rua São José, correndo. Cerca de três quarteirões depois, se esconde entre uma árvore e um carro estacionado. Abre a bolsa que levava nas costas e troca de roupa. E sai caminhando calmamente, em direção à praia.

Na esquina da praia com o Canal 4, é flagrado por mais uma câmera atravessando a avenida. É a última imagem que a polícia tem do assassino.

Em nenhuma das câmeras coletadas até agora é possível ver claramente o rosto do homem, qe é branco, alto e forte, com barba rala.

Darko foi socorrido por uma equipe do Samu e levado à Santa Casa de Santos, ainda com vida. Segundo um socorrista, ele ainda estava consciente quando foi resgatado, mas morreu assim que chegou ao hospital.

Darko foi morto numa sexta-feira à noite. A delegacia da área já estava fechada e só reabriu na segunda-feira, quando o crime começou a ser investigado de fato. Ou seja: o matador teve mais de 48 horas pra escapar tranquilamente. E, quem sabe, embarcar de volta pro leste europeu, com a missão cumprida.

A esposa de Darko, segundo relatos de pessoas próximas, não sabia do passado criminoso do marido. Amigos também dizem que não desconfiavam de nada.

 “A gente achava estranho ele não ter documentos brasileiros, não ter registrado o filho, ter colocado o imóvel só no nome da mulher...”, conta o advogado e amigo da família. “Mas quando a gente perguntava, ele dizia que estava ilegal no país e que em breve ia se regularizar. Ninguém imaginava o que ele já tinha feito. E isso, sinceramente, não me importa. Eu continuo gostando muito do Deko”.

A mulher termina o suco de abacaxi, levanta e, antes de ir embora da cafeteria, desabafa: “O Deko era um cara do bem, acima de qualquer suspeita. Mas ele enganou todo mundo”.

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