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Sabado, 02 de Maio de 2026

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Salgueiro leva pra Sapucaí a Resistência Yanomami

O samba-enredo leva o nome de “Hutukara”, que é a terra-floresta

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Salgueiro leva pra Sapucaí a Resistência Yanomami
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Davi Kopenawa na quadra do G.R.E.S. Acadêmicos do Salgueiro durante escolha do samba enredo. Créditos: Lucas Landau/ISA

Com o refrão “’Ya temi xoa, aê, êa!’ (Eu ainda estou vivo), a Acadêmicos do Salgueiro homenageia o povo Yanomami, além de Bruno Pereira e Dom Philips

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Assista ao vídeo oficial  do samba enredo do Salgueio 2024:

A história e a resistência do povo Yanomami vão ocupar na Sapucaí no Carnaval 2024 em uma homenagem da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, no Rio de Janeiro. Com o refrão  ‘Ya temi xoa, aê, êa!’ (Eu ainda estou vivo, em Yanomae), a escola vai resgatar o ‘Brasil cocar’ e contar sobre a cultura do povo Yanomami.

O samba-enredo leva o nome de “Hutukara”, que é a terra-floresta, segundo o glossário divulgado pelo Salgueiro a poucos dias do carnaval.  Essa “terra-floresta”, por sua vez, é o chão de Omama, Deus da criação para o povo Yanomami. “Hutukara” também faz referência ao céu ancestral que desabou sobre a terra nos primórdios, formando a floresta que cobre o nosso planeta hoje.

No refrão, é entoada a frase principal “Ya temi xoa, aê, êa! Ya temi xoa, aê, êa!”, que significa “Eu ainda estou vivo” em Yanomae, uma das seis línguas da família Yanomami.  Estar vivo, nesse caso, significa mais do que a condição física, mas também a boa saúde mental e emocional.

A homenagem acontece um ano após a declaração de emergência sanitária na Terra Indígena Yanomami pelo Governo Federal, quando foi constatada a prática de genocídio contra os povos que habitam o território. O cenário era de completa tragédia, com crianças com quadros de desnutrição grave, além de muitos casos de malária, infecção respiratória aguda (IRA) e outras doenças.

O samba do Salgueiro é mais que uma homenagem, é também um alerta para que a atenção nunca deixe de se voltar aos povos indígenas e que “a chance que nos resta é um Brasil cocar”. Há algumas semanas, o presidente Lula (PT) se reuniu com 11 ministros para lançar um novo plano de combate à invasão à TI Yanomami, que ainda persiste.

YA TEMÍ XOA, AÊ-ÊA / MEU SALGUEIRO É A FLECHA PELO POVO DA FLORESTA / POIS A CHANCE QUE NOS RESTA É UM BRASIL COCAR

A elaboração do samba contou com a participação de Davi Kopenawa, maior liderança do povo Yanomami. Durante a grande final da disputa para escolha do samba, o líder afirmou: “Vocês não conhecem o meu povo, mas agora estão conhecendo. Sou a liderança Yanomami que representa 30 mil [indígenas] do território de Roraima e do Amazonas”.

Davi Kopenawa também visitou a comunidade do Salgueiro, na Tijuca, Zona Norte do Rio, para contar sobre seu povo e conversar com os moradores e salgueirenses. Em um vídeo da campanha do Salgueiro contra o marco temporal, Kopenawa afirma que conheceu seus parentes, as pessoas negras, que enfrentam o mesmo problema que seu povo.

O carnavalesco Edson Pereira defende que o desfile é “a oportunidade que a gente tem de reação de todos aqueles que precisam conhecer a cultura Yanomami”. Em uma carta para a comunidade salgueirense, ele afirma que “o respeito só pode nascer da admiração, não da pena. Afinal, o genocídio visto hoje mostra mais quem são os napë (não indígenas) do que sobre os Yanomami”.

Bruno Pereira e Dom Phillips

O samba enredo também vai relembrar o assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Philips no Vale do Javari, no Amazonas, em junho de 2022. Os dois foram mortos por seus trabalhos em defesa dos indígenas da região.

ANTES DA SUA BANDEIRA, MEU VERMELHO DEU O TOM / SOMOS PARTE DE QUEM PARTE, FEITO BRUNO E DOM”.

O Salgueiro explica que “eles ganham citação em nosso samba por terem sido ‘brancos’ que entenderam verdadeiramente os povos indígenas. Mesmo que seus corpos não estejam mais aqui, seus pensamentos permanecem”.

Confira o samba enredo

Ya temí xoa, aê-êa

Ya temí xoa, aê-êa

Meu Salgueiro é a flecha pelo povo da floresta

Pois a chance que nos resta é um Brasil cocar

 

Ya temí xoa, aê-êa

Ya temí xoa, aê-êa

Meu Salgueiro é a flecha pelo povo da floresta

Pois a chance que nos resta é um Brasil cocar

 

É Hutukara, o chão de Omama

O breu e a chama, deus da criação

Xamã no transe de Yãkoana

Evoca Xapiri, a missão

Hutukara ê, sonho e insônia

Grita a Amazônia antes que desabe

Caço de tacape, danço o ritual

Tenho o sangue que semeia a nação original

 

Eu aprendi o português, a língua do opressor

Pra te provar que meu penar também é sua dor

Falar de amor enquanto a mata chora

É luta sem flecha, da boca pra fora

Falar de amor enquanto a mata chora

É luta sem flecha, da boca pra fora

 

Tirania na bateia, militando por quinhão

E teu povo na plateia vendo a própria extinção

Yoasi que se julga família de bem

Ouça agora a verdade que não lhe convém

Yoasi que se julga família de bem

Ouça agora a verdade que não lhe convém

 

Você diz lembrar do povo Yanomami

Em 19 de abril

Mas nem sabe o meu nome e sorriu da minha fome

Quando o medo me partiu

Você quer me ouvir cantar em Yanomami

Pra postar no seu perfil

Entre aspas e negrito, o meu choro, o meu grito

Nem a pau, Brasil

 

Antes da sua bandeira, meu vermelho deu o tom

Somos parte de quem parte, feito Bruno e Dom

Kopenawas pela terra, nessa guerra sem um cesso

Não queremos sua ordem, nem o seu progresso

 

Napê, nossa luta é sobreviver

Napê, não vamos nos render

 

Ya temí xoa, aê-êa

Ya temí xoa, aê-êa

Meu Salgueiro é a flecha pelo povo da floresta

Pois a chance que nos resta é um Brasil cocar

A composição do samba é de Pedrinho da Flor, Marcelo Motta, Arlindinho Cruz, Renato Galante, Dudu Nobre, Leonardo Gallo, Ramon Via13 e Ralfe Ribeiro

Glossário

Hutukara: a terra-floresta.

Omama: o demiurgo. É o Deus da criação para os Yanomami.

Xamã: Guerreiros do mundo espiritual. Eles fazem a conexão entre o mundo visível e o mundo invisível, atuando como escudos contra os poderes maléficos oriundos dos humanos e dos não-humanos que ameaçam a vida de suas comunidades.

Yakoana: substância extraída das raspas de uma árvore que possui efeito alucinógeno. É utilizada nos rituais xamânicos.

Xapiris: são os espíritos de luz, defensores da terra-floresta. Só são vistos pelos xamãs após o uso da yakoana.

Yoasi: o irmão de Omama. É o responsável pela criação da morte e da escuridão.

Kopenawa: o sobrenome da principal liderança Yanomami significa “marimbondo”. É melhor não mexer com marimbondo!

Napê: termo para designar todos os forasteiros, como o homem branco e os garimpeiros.

Ya Temi Xoa: expressão de resistência que significa “Ainda estou vivo!”.

Fonte: Revista Fórum

FONTE/CRÉDITOS: Forum
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