Ontem, na Ipueira, a noite vinha se deitando por cima da terra ainda fria da chuva, devagar, feito rede armada em fim de tarde.
O céu guardava um resto de cinza e silêncio, e o vento trazia cheiro de chão molhado, de curral, de vida lavada.
Eu conversava com Nobel, homem desses que parecem ter brotado do próprio lugar, já com a idade misturada à poeira e ao tempo, e combinava de acordar cedo, antes do sol esticar os braços.
Disse a ele, quase sem pensar, que colocasse o despertador.
Ele virou o rosto com um meio riso, como quem escuta uma coisa fora do rumo, e perguntou pra quê, se não tinha um galo.
A frase caiu no terreiro da conversa como semente.
Perguntei se ele acertava.
Ele ajeitou o corpo, sem nenhuma dúvida, e disse que era o seu relógio.
E ficou assim.
Mas dentro de mim não ficou.
Porque naquele instante me deu um aperto manso.
Os galos foram embora.
Sumiram dos quintais, das cercas, das madrugadas.
Foram sendo expulsos pelo concreto, pelo vidro, pelo barulho que não dorme.
E com eles foi também esse costume bonito de o dia nascer de dentro da terra.
Na cidade, o tempo não canta mais.
Ele grita em sirene, em toque seco, em luz fria de celular.
Arranca a gente do sono como quem puxa um boi pela corda.
Mas ali não.
Ali o escuro vai afinando até virar manhã.
E o galo, sentinela de pena e de instinto, rasga o silêncio antes do sol, como quem abre caminho pra luz passar.
Não marca hora.
Inaugura destino.
Nobel dorme sem pressa porque sabe que o dia não falha.
Quando o galo canta, não é só ele.
É o mundo se lembrando de começar outra vez.
E eu fiquei ali, com aquilo me atravessando feito vento de madrugada em porta mal fechada,
pensando que talvez o que tenha sumido não foram só os galos.
Foi a nossa capacidade de ouvir o dia nascer.
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