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Domingo, 26 de Abril de 2026

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OPINIÃO - DANIEL PEREIRA -A HERMENÊUTICA  E  AS DONAS DO PODER

Inventaram  agora nos Estados Unidos um movimento para acabar com o voto feminino, alegando que, nos tempos bíblicos, o homem rugia e a mulher apenas bordava em silêncio. Veja a marmota:

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OPINIÃO - DANIEL PEREIRA  -A HERMENÊUTICA  E  AS DONAS DO PODER
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Inventaram  agora nos Estados Unidos um movimento para acabar com o voto feminino, alegando que, nos tempos bíblicos, o homem rugia e a mulher apenas bordava em silêncio. Veja a marmota: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/25/a-campanha-contra-o-voto-feminino-nos-eua.ghtml. Essa história de que a Bíblia é um manual de submissão feminina é coisa de quem nunca passou da terceira página do Gênesis.
Se a gente fizer a prova dos nove no Livro Sagrado, descobre que os patriarcas, coitados, sequer  decidiam o cardápio do jantar, quanto mais os rumos da história. 
As Donas do Pedaço
Tomemos como exemplo algumas mulheres e seus feitos: 
• Eva: No Paraíso, o protagonismo foi dela. Comeu a fruta e ainda fez Adão engolir até o caroço. É o primeiro caso de exercício de poder. 
• Sara: Abraão, o "Pai de Nações", na verdade era o relações-públicas da esposa. Quando Sara decidiu que a escrava Agar e o filho Ismael deveriam ir para o deserto, Abraão não discutiu; apenas arrumou as malas. Ele não mandava nada, apenas dançava conforme a música da patroa.
• Rebeca: Inverteu a ordem da primogenitura na base da astúcia, passando a perna no marido Isaque para coroar o favorito Jacó. Mais uma vez, o patriarca entrou com a barba e ela com a estratégia.
• Dalila: Fez o Sansão, aquele que matava leões no soco, "gemer sem sentir dor". Ele perdeu as tranças, a força e a vida, apenas pelo perfume da filisteia. 
• Jezabel e Ester: Uma era odiada e a outra amada, mas ambas tinham a mesma especialidade: fazer o rei mudar de ideia (e de rumo) antes do café da manhã.
A Hierarquia Real
Na prática da vida, o comando sempre esteve com elas. Ainda solteiro, lembro do saudoso professor Venilton, que não via sentido em segurar a esposa em casa “se as mulheres dos médicos” estavam todas trabalhando. Ou do não menos saudoso  Henrique Paulista, que educava   as três filhas para sustentarem a si mesmas e, se desse na telha, até de um malandro — mas jamais  depender de um deles. As meninas foram preparadas para o comando, como se isso não fosse, desde sempre, a própria natureza delas.
Mas a melhor definição veio de um general, homem de muitas estrelas no ombro, que recusou um convite porque a esposa ia viajar e ele precisava acompanhá-la. A explicação foi de uma lógica implacável: "Na tradição militar, a esposa está sempre uma patente acima do marido."
Se até um general estrelado bate continência em casa, quem sou eu para achar que as mulheres não mandam no pedaço?
Do Éden a Rondônia
É claro que o reconhecimento da importância feminina não pode ser apenas retórica de botequim. Ao governar Rondônia, pude ver a presença  feminina suavizar áreas onde antes só os barbados ditavam as regras. 
A Dra. Valquíria Manfroi, até hoje, é a única mulher a ter exercido o comando da Delegacia Geral da Polícia Civil no Estado (https://www.youtube.com/watch?v=cByn0fwt8v8).  
Na Emater, a única mulher no comando até hoje, a Albertina Morangoni, foi escolha minha (http://www.emater.ro.gov.br/ematerro/2018/02/15/albertina-marangoni-e-a-primeira-mulher-a-assumir-a-presidencia-da-emater-ro/). 
Nas principais secretarias, o poder era dividido sem dramas: na Saúde, tivemos o médico Maiorquin e a enfermeira Socorro; no Planejamento, Pedro Pimentel e Maria Emília. Em outras pastas, o espaço foi só delas, como as professoras Angélica e Chaguinha,  na Educação e  Mary Braganhol  e Eloísa Bertoletti,  na Agricultura.  
E, cá entre nós, elas só deram alegria em cada centímetro de espaço que ocuparam.
O Esperneio Político
Nos Estados Unidos, esse barulho contra o voto feminino é puro medo estatístico. As mulheres preferem os Democratas, o que é natural na terra de Hillary, Michelle e Kamala. Ali, elas dividem o poder quando não o exercem diretamente. Do outro lado, no palanque republicano, o que se vê é uma moça com olhar triste, acompanhando um sujeito que já confunde o nome dos netos e se perde em histórias mal contadas.
O problema não é a Bíblia; é o medo que os homens têm de uma urna na mão de quem sempre teve o controle do juízo. No fundo, eles sabem que, desde o Éden, o voto final sempre foi delas — os homens é que demoraram para notar que eram apenas os eleitores.
Para encerrar, fico com a sabedoria da minha cunhada-irmã, Marilene Lacerda. Ao ser questionada sobre essa onda americana de querer o fim do sufrágio feminino, deu o veredito: — "Eu quero ter o direito de, se eu quiser, não querer votar."
Que assim seja. A liberdade eleitoral feminina, afinal, é a maior das patentes da sociedade moderna. Que seja mantida. 

DANIEL PEREIRA: Advogado e ex-governador de Rondônia

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